26 minutos
Tabela de conteúdos
1
O Primeiro Encontro
A primeira vez que vi, achei que fosse só um reflexo.
Eu estava jantando, distraído, mastigando sem pensar, quando um vulto escuro cruzou minha visão periférica. Pequeno, rápido. Esfreguei os olhos. A luz tremulava levemente no teto, projetando sombras alongadas na parede da cozinha.
Parei de mastigar. Um frio rastejou pela minha espinha.
Estava ali, imóvel, perto da base da geladeira. Pequeno corpo marrom, lustroso sob a luz amarela. Me encarava. Eu juro que me encarava.
Larguei o garfo no prato e me levantei devagar, sem desviar o olhar. Quando me mexi, ele se mexeu também. Rápido demais.
O som seco de algo se arrastando pelo piso ressoou pela cozinha e, num instante, ele sumiu.
Apenas o relógio na parede fazia barulho agora. Tic-tac, tic-tac. O zunido distante da lâmpada parecia mais alto que o normal.
Aproximei-me da geladeira, movendo apenas os olhos. Nada. Nenhum rastro.
Meu estômago revirou.
Voltei para a mesa, mas minha fome evaporou. A carne parecia crua, o arroz, empapado. Engoli seco. Talvez eu estivesse cansado. O trabalho sugava minhas energias. Sim, devia ser isso.
Mas então, no exato instante em que peguei o prato para levar à pia, um estalo soou no canto da parede. Um som fraco, mas úmido.
Algo pequeno, rápido, sumiu por trás do fogão.
Eu larguei o prato.
2
Pequenas Fendas
Meu coração ainda martelava no peito quando me aproximei do fogão.
Hesitei.
A cozinha inteira estava imóvel, silenciosa, mas o ar parecia… carregado. Como se algo estivesse esperando.
Respirei fundo e, com um movimento seco, puxei o fogão para trás. O metal raspou no piso, emitindo um guincho desagradável que me fez cerrar os dentes.
O espaço estreito entre o eletrodoméstico e a parede estava sujo de gordura, poeira acumulada nos cantos. Mas então, eu vi.
Pequenas rachaduras serpenteavam pela pintura amarelada, formando linhas finas que se entrelaçavam como raízes. Algumas estavam abertas o suficiente para revelar uma escuridão estranha, profunda demais para fendas tão pequenas.
Ajoelhei-me, aproximando o rosto. O cheiro de poeira e óleo velho era forte, mas havia algo mais… um odor metálico e amargo.
Minha garganta secou.
Devagar, estendi o dedo e toquei uma das fendas. A tinta se desfez ao menor contato, soltando-se em pequenos flocos.
O buraco pareceu se alargar levemente.
Afastei a mão de imediato, os pelos dos meus braços eriçados. Eu não deveria estar mexendo nisso.
Foi quando ouvi.
Um estalo fraco, seco. Como algo movendo-se do outro lado da parede.
Meu corpo congelou.
Era um som impossível de descrever. Nem madeira rangendo, nem canos estalando. Algo… úmido.
Algo que se arrastava.
Meus olhos estavam fixos na fresta. Meu peito subia
e descia rapidamente.
Outro estalo.
Senti um arrepio subindo pela coluna.
Por um momento, me pareceu que a rachadura se movia.
Piscando várias vezes, recuei, tentando convencer a mim mesmo de que era só uma ilusão, um truque da luz.
Com um movimento brusco, empurrei o fogão de volta para o lugar.
Antes de sair da cozinha, olhei uma última vez para a parede.
A fresta parecia um pouco maior do que antes.
3
Bloqueios
Não sou do tipo que entra em pânico.
Eu poderia simplesmente ignorar, fingir que aquilo não estava ali. Mas não estava certo.
Eu sentia isso.
Cada vez que fechava os olhos, imaginava os pequenos buracos crescendo, alargando-se lentamente enquanto eu dormia.
Não. Não ia deixar isso acontecer.
Peguei a fita adesiva na gaveta e, com passos firmes, voltei até o fogão. Me ajoelhei e o puxei de novo, sem hesitação.
Desta vez, não esperei nada se mexer.
As rachaduras estavam lá. Eram mais longas.
Minha mão tremia quando rasguei um pedaço de fita e apertei contra a maior delas. A cola grudou na parede, cobrindo a abertura escura. Fiz o mesmo com as outras, uma por uma, até que todas estivessem seladas.
Meus ombros relaxaram um pouco.
Resolvido.
Empurrei o fogão de volta, apaguei a luz da cozinha
e fui para o quarto.
A cama estava gelada.
Deitei-me de lado, tentando ignorar o zumbido insistente da lâmpada no corredor. O som ecoava dentro da minha cabeça, um chiado fino que parecia vibrar na mesma frequência da minha ansiedade.
Virei para o outro lado. Fechei os olhos.
Tentei dormir.
Então ouvi o primeiro estalo.
Baixo.
Apenas um leve tec, abafado pelo fogão.
Meu corpo ficou tenso.
Outro.
E mais outro.
A sequência irregular de pequenos tocs se espalhava pelo silêncio, como unhas arranhando madeira.
Puxei a coberta até o queixo.
Era só minha imaginação.
Eu me virei para o outro lado.
Então veio um som diferente.
Algo se rasgando.
Meus olhos se abriram na mesma hora.
Eu ouvi aquilo.
A fita.
A fita estava… se soltando?
O ar ficou pesado no meu peito.
Fiquei ali, parado, esperando. Ouvindo.
O silêncio se arrastou pelo quarto.
Por um instante, achei que talvez tivesse sido um sonho, um ruído qualquer da minha mente já exausta.
Mas, debaixo do cobertor, meus dedos suavam frio.
Camiseta Skullz
Desenhada para ser a base da sua identidade urbana.
4
Não Está Acontecendo
Não vou me levantar.
Não vou cair nessa.
Respirei fundo, apertando os olhos com força.
Eu já sabia onde isso ia dar. Se eu fosse até lá,
se checasse as fitas, tudo ia piorar. Eu ia começar
a ver coisas. Ou ouvir mais coisas.
Não.
Não vou alimentar essa merda.
Outro estalo ecoou pelo apartamento.
Meu corpo se enrijeceu, os músculos tensos debaixo das cobertas.
Ignorei.
Minhas mãos estavam suadas.
O tempo se arrastava, como se cada minuto fosse uma eternidade. O silêncio pesava. Mas eu me recusava a me mexer.
De olhos fechados, repeti para mim mesmo:
“Isso não está acontecendo.”
“Isso não está acontecendo.”
Minha respiração começou a desacelerar. O peito subia e descia mais devagar.
Os ruídos pararam.
O apartamento voltou ao seu estado normal – nada além do zunido fraco da lâmpada e do tic-tac do relógio na sala.
O alívio veio em ondas.
Talvez eu estivesse exagerando. Provavelmente era só
a estrutura do prédio, um cano antigo rangendo dentro da parede.
Sim.
Só isso.
Soltei um suspiro e afundei o rosto no travesseiro.
O colchão estava quente, confortável. Meu corpo começou a relaxar, o sono finalmente me puxando para longe dessa obsessão ridícula.
Foi quando senti o toque na pele.
Algo leve.
Sutil.
Na minha perna.
Meu corpo inteiro congelou.
Era tão fraco que por um segundo achei que fosse minha imaginação. Um arrepio, talvez. Mas então…
Se moveu.
Lento.
Subindo.
Um peso minúsculo atravessando meu joelho,
seguindo a curva da minha coxa.
O ar ficou preso na minha garganta.
Não mexa.
Não respire.
A coisa se arrastava, subindo pelo meu corpo.
Um peso morno, pequeno demais para ser humano, grande demais para ser um inseto comum.
Eu queria me mover. Mas e se eu fizesse isso e…
e ela corresse para dentro da coberta?
Meu coração batia tão forte que senti o sangue pulsando nos meus ouvidos.
Ela parou.
Bem ali.
No meu quadril.
E então, lentamente… desceu.
Sumiu.
O colchão voltou a ficar vazio. O ar, pesado.
Minha pele inteira formigava.
Mas eu não me mexi.
Eu fiquei ali, imóvel, paralisado, esperando.
E esperando.
Até o sono me levar.
5
O Vestígio
Acordei com o sol invadindo o quarto.
Minha cabeça pesava. Meu corpo parecia cansado, como se eu não tivesse dormido nada.
Fiquei ali, de olhos abertos, encarando o teto.
Eu lembrava.
Lembrava do peso sobre minha perna.
Lembrava do toque lento, explorando minha pele, quente e impossível de ignorar.
Virei o rosto para o outro lado, tentando afastar a sensação.
Não.
Não foi real.
Joguei as cobertas para o lado e sentei na beira da cama.
Meu corpo inteiro estava tenso. O quarto parecia diferente, mas eu não sabia dizer por quê.
Um gosto amargo encheu minha boca.
Respirei fundo e passei a mão pelos braços, tentando afastar a sensação persistente de que algo ainda estava ali, me observando.
Não consegui evitar.
Meus olhos percorreram o chão, os cantos escuros do quarto.
Eu precisava ter certeza.
Levantei-me devagar. Fui até o interruptor e acendi a luz.
O quarto pareceu maior do que o normal. As sombras nas frestas da parede pareciam mais profundas.
Minha respiração ficou rasa.
Agachei ao lado da cama e levantei o colchão.
Nada.
Corri os dedos pelo tecido áspero, sem saber exatamente o que estava procurando. Mas, conforme meus olhos examinavam cada canto, um arrepio percorreu minha espinha.
Na borda do colchão, dobrado, havia um pequeno pedaço de fita adesiva.
Minha boca secou.
Tremendo, peguei aquilo entre os dedos.
A cola ainda estava fresca.
Era uma das fitas que eu tinha colocado na cozinha.
Soltei o colchão e corri até lá.
O fogão estava no lugar. Tudo parecia normal.
Mas quando ajoelhei para olhar atrás dele…
As rachaduras estavam maiores.
A tinta ao redor parecia gasta, desgastada de maneira desigual, como se…
Como se algo tivesse forçado a saída.
Um estalo seco ecoou dentro da parede.
Eu me afastei de imediato.
Minhas costas bateram contra a mesa, meu peito subindo e descendo rápido.
O silêncio pesou.
Eu segurei a fita entre os dedos, sentindo a cola contra
a pele, e me perguntei:
Como isso foi parar no meu quarto?
6
Vigília
Eu precisava ver.
Nada mais fazia sentido. A fita adesiva no meu quarto, as rachaduras cada vez maiores, o som de algo se arrastando dentro das paredes.
Eu precisava olhar com os meus próprios olhos.
Arrastei uma cadeira para a cozinha e a posicionei de frente para o fogão. Peguei uma xícara de café forte, uma lanterna e me sentei.
Os ponteiros do relógio marcavam 23h42.
A lâmpada amarela tremia no teto, projetando sombras nas frestas das paredes.
Eu ia esperar.
A primeira hora passou devagar.
Meu olhar se fixou na base do fogão. A fita adesiva ainda estava no lugar, cobrindo as rachaduras.
Nada se mexeu.
Às 00h56, bocejei. O cansaço pesava sobre meus ombros, mas me recusei a piscar por muito tempo.
O café já estava frio.
Às 01h32, uma pequena mudança.
A fita adesiva estava… diferente?
Eu podia jurar que antes ela estava esticada, mas agora parecia ligeiramente descolada, como se a cola estivesse perdendo a aderência.
Meu coração acelerou.
Segurei a lanterna com mais força, a luz tremendo
um pouco na minha mão.
Então, às 02h17, aconteceu.
A fita se mexeu.
Apenas um milímetro. Uma contração mínima.
Mas eu vi.
Me inclinei para frente, apertando os olhos.
Outro movimento.
Lento. Puxando-se para fora.
Meus dedos apertaram os braços da cadeira. O silêncio da cozinha parecia vibrar ao meu redor.
A fita tremeu mais uma vez. E então se soltou completamente.
O buraco estava exposto.
Um espaço negro e profundo, largo o suficiente para que algo pudesse passar.
Minha respiração ficou presa no peito.
A escuridão dentro da fenda parecia se mover, pulsando em um ritmo irregular.
A luz da lanterna tremulou.
Foi quando vi os fios.
Não eram fios de poeira, nem rachaduras.
Eram pequenas pernas.
Estáticas, mas levemente curvadas, como se estivessem esperando o momento certo para se mexer.
Um gosto amargo subiu pela minha garganta.
Eu não conseguia piscar.
Os fios se mexeram.
Lentamente, como se percebessem minha presença.
Meus pulmões ardiam. Meu corpo inteiro estava imóvel.
Então, do fundo da rachadura, algo começou a sair.
7
Impacto
Não pensei.
Minhas mãos se moveram antes mesmo que minha mente processasse o que estava acontecendo.
A primeira coisa que alcancei foi a xícara de café frio.
Esmaguei com força contra a fenda.
O som da porcelana se partindo se misturou com um estalo úmido.
Meu coração disparou. Eu afastei a mão rapidamente, respingado de café e… algo mais.
O buraco agora estava escuro e imóvel.
Mas eu sabia o que tinha sentido.
Por uma fração de segundo, eu toquei em alguma coisa.
Não era sólido, nem líquido. Era algo entre os dois. Algo que cedeu sob a minha força e depois se contraiu.
Meu estômago revirou.
Respirei fundo, tentando ignorar a sensação pegajosa nos meus dedos.
O silêncio pesava na cozinha.
O relógio marcava 02h24.
De repente, um tec.
Baixo, sutil, como algo se partindo.
Outro tec.
Vinha de perto. Mas não do buraco no fogão.
Meu peito apertou.
Virei lentamente a cabeça.
E vi.
As outras rachaduras estavam se abrindo.
Uma linha fina e escura se formava na parede perto da pia. Outra, atrás da geladeira. Pequenos estalos se espalhavam pelo teto.
Eu me levantei devagar.
O ar parecia pesado, sufocante.
Minhas mãos ainda tremiam quando peguei um pano para limpar o café e… o outro líquido da minha palma.
Meus dedos estavam grudentos.
O cheiro era estranho.
Amargo.
A cozinha agora parecia maior.
Ou talvez eu estivesse pequeno demais.
O relógio marcava 02h26.
Eu precisava sair dali.
8
Escondido
Meus pés estavam gelados contra o chão enquanto eu caminhava para o quarto.
As rachaduras estavam se espalhando.
Eu vi.
Não era imaginação. Eu vi.
Fechei a porta atrás de mim com força, trancando a cozinha do lado de fora. Meus dedos apertavam a maçaneta com tanta força que ficaram dormentes.
O quarto estava escuro. Só uma pequena fresta de luz amarela do corredor escapava por baixo da porta.
Meu peito subia e descia rapidamente.
Deitei-me na cama e puxei o cobertor sobre mim.
O tecido era quente, mas minha pele continuava fria.
O silêncio voltou.
Meus olhos estavam abertos, fixos no teto. Eu podia ouvir minha própria respiração, o coração batendo forte.
Mas nada mais.
Talvez agora pare.
Me forcei a respirar devagar. Meu corpo ainda estava tenso, mas o tempo passou sem que nada acontecesse.
Isso.
Talvez eu estivesse exagerando.
Talvez fosse só um colapso mental, um efeito do cansaço, da falta de sono.
Fechei os olhos.
E então senti.
O colchão se afundou levemente ao meu lado.
Meu sangue gelou.
Fiquei completamente imóvel.
Minha mente gritava que era apenas meu corpo se ajustando no colchão, que era normal, que não tinha mais nada ali.
Mas então, o peso se moveu.
Uma pressão pequena, como dedos pressionando o tecido.
O ar ficou preso na minha garganta.
Aquilo rastejou lentamente para mais perto.
Minha pele inteira se arrepiou, como se algo quente e úmido estivesse encostando na minha perna por debaixo das cobertas.
Meu corpo queria gritar, correr, mas eu não conseguia me mexer.
Então, do lado da cama, bem perto do meu ouvido, uma voz sussurrou.
– Você deixou sair.
Meus pulmões arderam.
E então o peso sumiu.
Minha respiração voltou de repente, e eu me sentei num pulo, jogando o cobertor para o lado.
Nada.
Nada.
Meu peito subia e descia de forma descontrolada. Minhas mãos tremiam.
Eu me levantei de um salto, acendi a luz, olhei debaixo da cama, nos cantos do quarto, atrás do armário.
Nada.
Mas o colchão…
O colchão ainda estava ligeiramente afundado.
Como se alguém tivesse deitado ali comigo.
9
Procurando o Nada
Eu preciso ver.
Não posso mais ignorar.
Não posso mais fingir que isso não está acontecendo.
Meu corpo ainda tremia quando saí do quarto.
O apartamento estava escuro e silencioso, mas havia algo errado.
O cheiro.
O ar carregava um odor fraco, doce e amargo ao mesmo tempo.
Um cheiro metálico, úmido.
Engoli em seco e liguei todas as luzes conforme andava.
Sala.
Vasculhei debaixo do sofá. Atrás das cortinas. Dentro do armário.
Nada.
Banheiro.
Olhei debaixo da pia. Puxei o cesto de roupas.
Nada.
Corredor.
Minhas pegadas pareciam ecoar enquanto eu avançava. O cheiro ficava mais forte.
Cozinha.
O fogão ainda estava no lugar. Mas…
As rachaduras haviam se multiplicado.
Não eram apenas pequenos riscos na parede agora. Eram fendas.
Eram aberturas.
E eu percebi.
Elas não estavam apenas crescendo.
Elas estavam se movendo.
Um estalo seco ecoou acima da minha cabeça.
Levantei os olhos.
O teto estava rachado. Pequenos cortes que se estendiam para os lados.
E então, eu vi.
Lá, entre as sombras, algo estava encolhido, espremido dentro das rachaduras.
Um corpo fino, dobrado sobre si mesmo, torcido de uma forma que não era humana.
A pele era irregular. Pequenas pernas tremiam
sob a luz fraca.
O pescoço estava torcido num ângulo impossível.
A cabeça se virou.
Eu não deveria ter olhado.
Meu sangue gelou.
Os olhos eram grandes e fundos, escuros como
os buracos na parede.
A boca se abriu.
Algo rastejou para fora dela.
Meu peito se contraiu.
O ar ficou denso. Pesado.
Meu corpo queria correr, mas minhas pernas não obedeciam.
Então, ele começou a descer.
10
Sem Saída
Meu corpo se mexeu antes que eu pudesse pensar.
Virei e corri pelo corredor, meus pés descalços batendo contra o chão frio.
Atrás de mim, ouvi o estalo úmido de algo se movendo.
Minha respiração vinha curta, apavorada. Meu peito ardia, mas eu não parei.
Quando alcancei o quarto, empurrei a porta com força e bati ela atrás de mim.
Tranquei.
Meus dedos tremiam ao girar a chave.
Silêncio.
Me afastei da porta, engolindo seco, tentando normalizar a respiração.
O quarto parecia… estranho.
A luz do abajur tremia. As sombras nos cantos pareciam mais longas, como se estivessem se esticando conforme eu me movia.
Minha pele coçava. Eu sentia algo na pele.
Levantei a camisa e passei a mão pelo peito. Nada.
Mas a coceira não parava.
Um barulho seco veio da porta.
Um toque.
Um arranhão.
Meus músculos travaram.
O som continuou. Algo fraco, irregular, como dedos curtos raspando a madeira.
Fechei os olhos. Isso não está acontecendo.
Eu respirei fundo.
Devagar, me virei para o armário.
E congelei.
A porta estava aberta.
Eu tinha certeza absoluta de que ela estava fechada quando entrei no quarto.
Minha boca secou.
De dentro do armário, uma escuridão estranha me encarava.
O ar ali parecia mais denso, como se estivesse parado há anos.
Algo se moveu lá dentro.
Lento.
Minúsculos estalos, como patas tocando madeira.
Não estou sozinho.
Eu queria correr. Eu queria gritar.
Mas meus pés estavam presos no chão.
Então…
A escuridão sorriu.
E disse meu nome.
11
O Armário
Não.
Eu não vi nada.
Isso não está acontecendo.
Respirando fundo, me forcei a dar um passo à frente.
Minhas pernas tremiam, mas eu continuei.
A cada centímetro que eu me aproximava, o ar parecia mais espesso, como se eu estivesse caminhando contra algo invisível.
Mas eu fui.
Com as pontas dos dedos, toquei a madeira da porta do armário.
O toque era gelado.
Devagar, empurrei.
A porta fechou com um leve clique.
Pronto.
Resolvido.
Soltei o ar que nem percebi que estava segurando e recuei.
Atrás de mim, o quarto continuava igual. A luz fraca
do abajur piscando de leve, o lençol revirado na cama,
a porta fechada.
Nada mudou.
A não ser a coceira.
Meu braço ardia. Como se algo estivesse rastejando dentro da minha pele.
Passei a mão pelo pulso, pelo antebraço, tentando aliviar a sensação.
Talvez fosse psicológico.
Me sentei na beira da cama.
O silêncio no quarto era tão profundo que eu podia ouvir o pulsar do meu próprio coração.
Eu só precisava descansar um pouco.
Minha cabeça latejava.
Minha visão estava turva.
Fechei os olhos.
Só um segundo.
E então…
Um leve clique.
Meus olhos se abriram no mesmo instante.
O som ecoou no quarto, um estalo abafado, mas claro.
Eu sabia exatamente o que era.
A porta do armário.
Ela estava aberta novamente.
Mas não como antes.
Agora, escancarada.
O espaço dentro era fundo demais, mais fundo do que deveria ser.
A escuridão parecia respirar.
Meus dedos se cravaram na coberta.
Minha mente gritava para não olhar.
Não olhar.
Mas então, veio a voz.
Baixa. Quase um sussurro.
– Por que você fechou?
Minha garganta se fechou.
Minha pele inteira arrepiou.
Algo saiu do escuro.
E veio até mim.
12
Preso
Eu não posso me mexer.
Minha respiração está presa no peito.
O quarto inteiro parece menor, como se as paredes estivessem se aproximando lentamente.
A escuridão do armário se espalha pelo chão, rastejando em direção à minha cama.
Meu corpo inteiro está gelado.
Mas eu não posso me mexer.
O silêncio pesa.
Então, ouço os passos.
Curtos. Arrastados.
Vindos do armário.
Algo está saindo.
O colchão afunda ao meu lado.
Meu coração está batendo tão forte que eu sinto
as batidas ecoando nos ouvidos.
O peso sobre o colchão se ajusta.
A madeira range.
Algo… está sentando-se do meu lado.
Não posso ver. Não quero ver.
O ar ao meu redor está mais frio.
Posso sentir.
A presença.
Muito próxima.
Muito real.
O silêncio se estica até se tornar insuportável.
E então…
Ele suspira.
Um som baixo. Lento. Satisfeito.
Minha pele se arrepia.
Eu quero gritar. Correr. Fazer qualquer coisa.
Mas eu não me mexo.
A coisa ao meu lado também não.
Então, lentamente…
Algo toca meu braço.
Frio.
Úmido.
Dedos finos rastejam pela minha pele.
Minha visão escurece nas bordas.
Não posso respirar.
E então…
A coisa se aproxima do meu ouvido.
Sinto a respiração fraca, irregular.
E finalmente, ele fala.
Baixo.
Íntimo.
Como um segredo:
– Agora você também saiu.
13
O Que Está ao Meu Lado
Eu não quero olhar.
Minha respiração está trancada no peito. Meu corpo inteiro está rígido.
Mas meus olhos…
Meus olhos se movem sozinhos.
Lentos.
Tremendo.
O colchão ainda está afundado ao meu lado.
Eu sinto o peso.
Eu sinto a coisa sentada ali.
A escuridão do quarto parece pulsar ao meu redor.
Eu não quero ver.
Mas vejo.
E ele sorri.
Meu estômago se revira.
É um sorriso grande demais.
Largo.
Os dentes são irregulares, tortos, parecendo fragmentos de algo quebrado.
A pele é errada. Pálida demais. Como papel molhado. Como algo que nunca deveria ter saído da parede.
Os olhos são profundos, fundos como buracos.
Como as rachaduras.
Meu corpo não obedece.
Não consigo correr. Não consigo gritar.
Então ele levanta a mão.
Dedos compridos, ossudos.
Lentamente, lentamente…
Ele toca meu rosto.
A ponta do dedo gelado escorrega pela minha bochecha.
Eu tremo. Mas não consigo me afastar.
– Eu esperei tanto tempo.
A voz dele não tem som.
Eu não a ouço com os ouvidos. Eu a sinto dentro
da minha cabeça.
Meu estômago aperta.
Minha pele coça.
Algo está rastejando por dentro de mim.
Eu quero gritar.
Mas ele apenas inclina a cabeça.
O sorriso aumenta.
E então, com uma voz quase gentil, ele diz:
– Agora é sua vez de ficar aqui.
Meus olhos se arregalam.
A mão dele aperta minha garganta.
E tudo apaga.
14
Tarde Demais
Acordei com a luz do dia entrando pela janela.
Minha cabeça latejava. Minha garganta ardia.
Levantei-me devagar, cada músculo do meu corpo dolorido.
O quarto estava silencioso demais.
Olhei para o lado.
O colchão… estava vazio.
Eu pisquei várias vezes, tentando limpar a mente.
Ele se foi?
Me sentei na cama, o peito ainda subindo e descendo rápido.
Tudo parecia normal.
O armário estava fechado.
A porta do quarto estava ali.
O apartamento estava do jeito que sempre esteve.
Talvez…
Talvez tenha sido um pesadelo.
Levantei-me, esfregando o rosto com as mãos.
Me arrastei até o banheiro.
A água fria me ajudou a despertar.
Olhei meu reflexo.
Meu rosto parecia pálido. Olheiras profundas.
Os olhos fundos, como se eu não dormisse há dias.
Eu estava bem.
Eu estava bem.
Saí do banheiro, inspirando fundo.
Andei pela sala.
O sofá. A mesa. O tapete. Tudo no lugar.
A cozinha…
Meu estômago revirou.
As rachaduras.
Elas não estavam mais só atrás do fogão.
Agora, estavam por toda parte.
Na parede da sala.
No teto do corredor.
No batente da porta de entrada.
Finíssimas, entrelaçadas, como raízes se espalhando.
E… estavam abertas.
Eu parei no meio da sala.
Meu corpo gelou.
Um pensamento cruzou minha mente como um relâmpago:
O que saiu… não voltou.
Meu peito apertou.
Atrás de mim, algo estalou.
Minhas costas se enrijeceram.
O barulho veio da parede.
Eu me virei devagar.
E vi.
Havia um buraco.
Não como as rachaduras de antes.
Um buraco grande.
Aberto.
Negro.
O ar ao redor vibrava, como se o espaço ali fosse… instável.
Algo estava do outro lado.
O coração martelava dentro do meu peito.
E então, o buraco se expandiu.
E algo saiu.
15
O Que Saiu
Eu não me movo.
Meus pés estão enraizados no chão.
O buraco na parede está vivo.
Se expande lentamente, como carne pulsante, respirando.
O ar ao redor treme. Vibra.
E então…
Ele sai.
Primeiro, as patas.
Longas. Finas. Tortas em ângulos impossíveis.
Depois, o corpo, dobrado sobre si mesmo, como algo que passou tempo demais espremido dentro das rachaduras.
A pele não é pele. É casca.
Irregular. Fragmentada. Quebradiça, mas viva.
Ele se arrasta para fora.
Cada movimento produz um som úmido e seco
ao mesmo tempo.
Eu quero desviar o olhar.
Mas não posso.
Ele se endireita.
E então… a cabeça se vira para mim.
Os olhos são buracos fundos, escuros como o próprio espaço dentro das rachaduras.
A boca se abre.
E algo sai de dentro dela.
Um ruído.
Baixo.
Vibrante.
Palavras…?
Ou apenas um som que minha mente tenta desesperadamente compreender?
O sorriso se espalha por aquele rosto alongado
e ele me observa.
Como se esperasse algo.
Eu finalmente consigo respirar.
E pergunto, com a voz falha, arranhada:
– O que… você… é?
Ele inclina a cabeça.
E responde.
Baixo.
Nítido.
Irracional.
– Eu sou o que estava aqui antes de você.
Meu sangue gela.
Minha mente se contorce, tentando processar, tentando negar.
Mas então, o buraco atrás dele se alarga.
E outros começam a sair.
Patas estalando contra o chão.
Corpos retorcidos se desfazendo da escuridão.
Eles rastejam.
Eles caminham.
Eles tomam o apartamento.
Eles voltaram para casa.
Minha visão escurece nas bordas.
Minha pele queima.
Minhas pernas falham.
Antes de tudo desaparecer, eu entendo.
Eu nunca morei aqui.
Eu sempre fui o intruso.
EPÍLOGO
O NOVO MORADOR
O apartamento está vazio. As janelas abertas deixam o sol entrar, iluminando a poeira no ar.
O cheiro de tinta fresca ainda se espalha pelos cômodos. As paredes foram reformadas, os móveis retirados, as marcas do passado apagadas.
Quase todas.
Lucas joga as chaves sobre a bancada e estala os dedos, satisfeito.
Novo apartamento. Novo começo.
Ele caminha pelos cômodos, sentindo o espaço, mapeando os cantos.
O lugar parece estranhamente silencioso.
Nada de ruídos de vizinhos. Nenhum som vindo do corredor.
Só o leve zunido das lâmpadas e o tic-tac distante de um relógio que ele não lembra de ter colocado ali.
Lucas franze a testa.
Talvez o antigo morador tenha esquecido alguma coisa.
Ele segue até o quarto e larga a mochila na cama.
Suspira. Tudo parece… normal.
Mas então, algo chama sua atenção.
Ali, na parede ao lado do armário, um pequeno risco escuro corta a tinta nova.
Lucas se aproxima. Passa o dedo sobre a linha fina. A textura é áspera, como se algo estivesse por baixo da pintura.
Ele franze a testa, balança a cabeça e dá de ombros.
Nada demais.
Já ia se afastando quando…
Por um segundo, ele acha que ouviu um leve estalo.
Talvez só os canos.
Talvez.
Lucas sai do quarto, fechando a porta atrás de si.
Na parede, imperceptível sob a sombra do armário…
A rachadura se alarga.
Apenas um pouco.
Quase nada.
Como se respirasse.
