Wander Wildner
“Histórias De Sexo & Violência”, Replicantes, 1987, RCA/Plug
sons: CHERNOBIL / SANDINA / ÁFRICA DO SUL / MISTÉRIOS DA SEXUALIDADE HUMANA / ADÚLTERA (censurada) / SEXO E VIOLÊNCIA / PASSAGEIROS I / ASTRONAUTA / FESTA PUNK / NICOTINA / AMOR EU PRECISO / TOM E JERRY / MENTIRA / PASSAGEIROS II
formação: Cláudio Heinz (guitarra), Carlos Gerbase (bateria, backing vocal, vocal em “Amor Eu Preciso”), Heron Heinz (baixo), Wander Wildner (vocal, baixo em “Passageiros I” e “Passageiros II”, guitarra em “Amor Eu Preciso”)
participações: Luciana Tomasi (teclados em “Sandina”, “Mistérios da Sexualidade Humana”, “Astronauta” e “Amor Eu Preciso”), Zico (guitarra em “Adúltera”), Andrea Gerbase (backing vocal em “Festa Punk”), Raul Plentz (alarme nuclear em “Chernobil”)
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A resenha da vez se pretende específica pra quem tem irmão, irmã ou primos mais novos emos. Pra quem os considera a vergonha na família, muda de lado da rua se os/as vê chegando, ou simplesmente chega à conclusão de terem sido trocados na maternidade com o parente certo (que certamente está a gerar atritos na família de pagodeiros onde foi parar).
Pois os dias de hoje vêm fazendo justiça e injustiça simultâneas aos Replicantes: por um lado, a banda está em evidência e na mídia – numa certa mídia – como jamais esteve, mesmo nos anos oitentistas de discos por multinacional (e isso se deve também pela volta de Wander Wildner ao posto de vocalista – [já "desvoltada" neste 2010]). Só que por outro, “Histórias De Sexo e Violência”, clássico inominável de tão clássico, jamais saiu – e jamais sairá – em cd, como também não o anterior/estréia “O Futuro É Vortex” (dos clássicos “Surfista Calhorda”, “Hippie-Punk-Rajneesh” e “Por Quê?”) e o posterior (mais fraco e último pela BMG-Plug) “Papel de Mau”. O que existe no mercado é uma coletânea mulambenta juntando 20 sons aqui e ali dos 3 álbuns, sem nada de capas originais, nem encarte decente e provavelmente já fora de catálogo.
Só que a contemporaneidade é a dos tempos de Internet: por isso só buscar e baixar. E não só um ou outro som, mas o álbum como um todo. Por ser este o caso de disco de que mesmo os sons mais fracos (pra mim, só “Tom e Jerry”) acabam fazendo parte do todo, tornando-se indissociáveis do conceito “histórias” e de “de sexo e violência”. Dá quase pra forçar e chamar de ÁLBUM CONCEITUAL, embora não seja, tamanhas a inspiração e coesão entre as 14 faixas.
A gauchada aqui é considerada punk, mas na minha modestíssima opinião sempre esteve mais pra hardcore, embora alguns passos além destes também (e a base de comparação é o hardcore oitentista, não o fofolete atual), embora também estivessem alguns passos à frente. E o afirmo com base na Postura e nas Letras, sobretudo.
Postura: poucas bandas no Brasil levaram tão a sério e a fundo o “faça você mesmo” do punk inglês como eles. Já em meados dos 80′s comercializavam eles mesmos as próprias fitas demo (e não tenho certeza se também de outras bandas), por um selo chamado Vortex, deles próprios. E desde então dispunham de material gravado em vídeo (lançado à época em VHS e ultimamente prometido para DVD), com apresentações das mais surreais:
lembro haver passado na tv Gazeta em 1989 isso, eles tocando “Mentira” pra presidiários no interior do RS, falando besteira e ouvindo Metallica (“Disposable Heroes”) em ônibus a caminho de show, estreando sons em botecos porto-alegrenses, ou ainda divulgando o vídeo de “Surfista Calhorda”, à época gravado em super-8, e pra mim o melhor videoclipe nacional de todos os tempos. Coisa do baterista Gerbase, que alguns podem insolitamente reconhecer como diretor de cinema nacional (dirigiu “Tolerância”, um dos 4 filmes brasileiros realmente dignos de se assistir – minha reles opinião). Se por um outro lado isso tudo revelava também um pessoal de melhor poder aquisitivo em relação aos punks de periferia nacionais, ainda assim tal condição não atestava conformismo ou postura playboyzada em relação à vida.
Nas letras, os caras se distinguiam (e ainda se distinguem) do punk paulista consagrado e emérito – mas também algo sisudo e bitolado – por fugirem, nas letras de protesto (mas não só), da dicotomia viciada e limitada do “nós oprimidos versus o sistema tirano”: “Chernobil” fala de usinas nucleares, bradando “eu ñ quero a bomba nuclear” em 1ª pessoa; “Nicotina” é som anti-tabagista, mas feito por fumante (Cláudio Heinz), com toda a aparente contradição exposta. O mesmo se dá em sons mais… sentimentais, como “Sandina” (em 1ª pessoa a estória dum sujeito deixado pra trás por uma mina q o troca por “um sandinista especialista em granada de mão”), em “Amor Eu Preciso” (q a letra é o título repetido ao longo do som, sem soar ridícula) ou na melhor do disco, “Astronauta”, também estória de pé na bunda – sujeito na Lua toma um fora e vem pra Terra cair na farra e descolar mulher-robô.
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Ao mesmo tempo, alguns dos sons revelavam melhor cultura geral em relação aos demais punks e hardcores à época: “Sandina” trata de guerrilhas na Nicarágua; “Sexo E Violência” (de título homenageando Exploited?) fala de Chuck e Jack, estuprador e estripador, que “trabalhavam em dupla, mas se detestavam”, enquanto “África do Sul” tratava do ainda vigente apartheid (“cansado de apanhar, cansado de miséria, o negro vai matar o branco!”).
“Mistérios da Sexualidade Humana” não vai nem no protesto nem na onda de crônica urbana, mas fala de sexualidade adolescente (gravidez, punheta, filme pornô) como não vi ninguém ainda fazer; “Festa Punk” lista bandas e bandas, divertidamente. Abordagens amplas e certeiras de temas, nada repetitivas e enfadonhas: em nenhum momento o ouvinte se sente catequizado ou instado a tomar o lado “fraco” na batalha contra o Sistema, o Capitalismo, ou coisa que o valha; muito pelo contrário, tende a se sentir informado, algo bem diverso.
Ainda outro ponto das letras é o referente à de “Adúltera”, da qual não se ouve a mesma que, supostamente forte, foi CENSURADA pela PRÓPRIA GRAVADORA, que omitiu as estrofes no ÁUDIO! Sim, o que existe é Wander Wildner, após os intervalos consagrados às estrofes, apenas berrar o refrão “adúltera, adúltera, adúltera”. Contundência (da banda) é pouco, e barbaridade (da gravadora), idem: não me recordo de qualquer episódio no rock, pop, metal ou punk nacional revelador de tamanha arbitrariedade. *
Pra falar um pouco do som, das músicas, temos em “Histórias De Sexo e Violência” uma banda fraca tecnicamente – e o solo guitarrístico em “Festa Punk”, pra exemplificar, perpetua a indigência do solo de “Surfista Calhorda”: fraco, fraco… – mas que, por outro lado, se revela bastante criativa: inexiste aqui qualquer som de 3 ou 4 acordes repetidos do início ao fim. “Nicotina” e “Amor Eu Preciso” contêm seqüências de acordes q quase lembram riffs (dá pra tirar como riff); “Chernobil” e “Tom e Jerry” são guiadas por dissonâncias ou microfonias; “Astronauta” é quase heavy metal, numa combinação acordes + feedbacks + tambores ímpar.
Pra falar na bateria: pouco existe daquele “taco-taco-taco” reto e idêntico ao longo dos sons; Gerbase trabalhou bastante com os tons, com breques e seguradas (“Sandina”), fora pratadas pra reforço em refrão (“Mistérios da Sexualidade…”). Se a pedida for sair batendo cabeça (sim!) ou pogar no sofá da sala, as cadências impostas por Gerbase em “Chernobil”, “Adúltera” e “Mentira” são o que há de mais apropriado (a 2ª, ainda mais: quando se pensa que o som acaba, a batida volta vertiginosa e impele a se sair chutando o ar).
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É complicado. E talvez me tenha sido das resenhas mais complicadas até hoje de se fazer: por conta da sensação de se poder escrever um livro sobre este álbum sem que noções precisas ou aproximações minimamente razoáveis saiam a contento. Não sai, não há como. O que fica é o seguinte: jamais os próprios Replicantes replicaram (ops!) – ou haverão de replicar – toda a contundência, virulência e criatividade – quase que ia esquecendo de falar dos teclados com flanger em “Astronauta”, favorecendo ainda mais peso e dando todo um clima único – deste “Histórias De Sexo e Violência”, álbum clássico, clássico, clássico. Que não virou bolor após 23 anos. E obrigatório.
Obrigatório. Obrigatório.
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PS – resenha publicada originalmente em meu blog solo, o Thrash Com H, em 7 de Julho de 2006, quando o mesmo era do provedor weblogger, que era uma bosta e um dia acabou
PS 2 – no www.thrashcomh.com.br atual, acabei de reprisar resenha duma outra banda também jamais lançada em cd, o Corpse, que era daqui de São Paulo e eu duvido que alguém conhecesse
* arbitrariedade ocorrida em “Adúltera” descobri pouco tempo depois ter também ocorrido em “Por Que Não?”, dos próprios Replicantes no disco de estréia, que mandava Caetano Veloso ir pra “puta que o pariu”, mas a gravadora não deixou, apagando o verso
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