U2

Que me lembre, era 1986 já no fim, quase 1987, quando pedi pra minha mãe me comprarem, num finado Jumbo Eletro, este “Flaunt It”. Motivado, óbvia e hormonalmente dizendo, pela capa – que ainda acho foda, e isso é pobrema meu – e por “Love Missile F1-11″, hit da vez, que enchia o saco de tocar no rádio e eu curti.

  1. Love Missile F1-11
  2. Atari Baby
  3. Sex Bomb Boogie
  4. Rockit Miss U.S.A.
  5. 21st Century Boy
  6. Massive Retaliation
  7. Teenage Thunder
  8. She’s My Man

Não conhecia o heavy metal ainda, tampouco rock de verdade, mas aquela e as outras 3 ou 4 músicas tornadas favoritas me soavam PESADAS de verdade, hormonalmente (de novo) falando.

Foi também com “Flaunt It”, em resenha emprolada da Bizz, que precocemente me inteirei sobre existir o “rock de proveta” (sic), banda armação, coisa assim: algo que demorei a assimilar, tanto quanto do que diziam de “Gigantes do Ringue” (telecatch que passava na Record) ser marmelada, fajutice. E daí, mesmo curtindo os sons, tendo comprado pedido pra comprar o fraco “Dress For Excess” seguinte e lamentado não tê-los visto “ao vivo” em 1989 (quando os estranhei fazendo playback no Faustão, mas sem ligar A + B), ambivalentemente deixei o Sigue Sigue Sputnik de lado. E, ao que consta, também eles próprios.

25 anos se passaram: montes de bandas, discos, subestilos e shows conheci barra presenciei barra usufruí e… eis que “Flaunt It” ainda me caiu bem. O vinilzão.

***

Sonoramente o que predomina por aqui é um rockabilly eletrônico – cortesia clara da Roland, ostensivamente agradecida no encarte e contracapa – guiado por batidas eletrônicas 4×4 (2 bateristas, Ray Mayhew e Chris Kavanagh, na formação uma ova!) nada dance music ou poperô (surgidos depois, e talvez até no embalo daqui), com uma ou outra citação erudita ou de riff rock’n’roll antigo em meio aos sons. (Citação de T.Rex em “21st Century Boy” é até óbvia). Aparentemente tocadas, não samples aleatórios barra arbitrários.

A produção é excelente, por Giorgio Moroder (produtor de dance music setentista), e o que eu tinha de recordação de sons caóticos caiu por terra: o Nine Inch Nails e o Ministry noventistas talvez me deseducaram nesse sentido… Músicas acessíveis, pop, entremeadas com locuções femininas ditas sexy (por uma tal Yana Ya Ya) e um vocal canastrão (Martin Degville – inclusive no visú), como poucos vocalistas farofentos da Los Angeles oitentista ousaram ser. A não ser pela mela-cueca “Atari Baby”, uma promessa de serem a “5ª geração do rock’n’roll” bastante coerente.

O mentor da bagaça, por sua vez, era um tal Tony James, creditado como tocando “Space Guitar” (cuma?), de considerável histórico de punk de butique (tocara com Billy Idol no cult Generation X) e que faria parte do Sisters Of Mercy (no pesado “Vision Thing”. Tocando baixo) logo após. Pra daí sumir, voltar com o SSS (sem ninguém REALMENTE dar a mínima) e pecar em prolixidade no site oficial do projeto, dando-se uma importância biográfica pro mundo e pra música maior que a real.

E a mensagem dos caras vejo como incompreendida na época: crítica e algum público os tinha como povo presunçoso e esnobe, vide os vídeos e fotos hiperproduzidas, repletos de limusines, seguranças, festas milionárias e citações várias a “Sputnik Corporation”, “Sputnik tv” etc. A versão inglesa original de “Flaunt It” cometia ainda a HERESIA de conter intervalos comerciais – alguns claramente fajutos, outros não (L’oreal, EMI-Odeon) – nos espaços entre os sons. Estavam tirando sarro de si próprios e do rock comercial que se tornava hegemônico.

Tenho impressão de que nem mesmo o U2 ostensivamente comercial, tecnofílico e hiperbólico das fases “Achtung Baby” [resenhado por aqui mês passado] e “Zooropa” pegou inadvertidamente elementos do Sigue Sigue Sputnik. Mas os sujeitos aqui – completava o time, na contracapa, um certo Neal X, guitarrista – tiveram o vislumbre primeiro, isso é FATO.

Outros subtextos captáveis no disco dizem respeito à Guerra Fria (não poderia deixar de acontecer) e a um futurismo de megacorporações dominantes, no que acertaram em cheio, apenas errando em qual seria: não tinham como adivinhar o surgimento + crescimento voraz de Microsoft e Apple, no que apostaram num futuro “Blade Runner” pela Atari. Mas tudo bem.

Um livro famosão recente, “1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer”, que resenhei há algum tempo no Thrash Com H – http://thrashcomh.com.br/thrash/2011/10/servico-de-utilidade-publica-thrash-com-h-13/ – a meu ver ominosamente omite “Flaunt It” na copiosa e abrangente (até demais) lista. Talvez por terem sido (banda?) (projeto?) que se assumia sem qualquer integridade. Mas é fato que a MÚSICA talvez pudesse preponderar em julgamentos, e reouvir “Flaunt It” me fez novamente curtí-lo, sem qualquer culpa.

Afinal, bandas e artistas armados estão aí mais do que se imagina.

Já as 4 músicas preferidas me continuaram as mesmas: “Love Missile F1-11″, “21st Century Boy”, “Rockit Miss U.S.A.” e “Teenage Thunder”. Pra mim, está bastando.

O culto retrô aos anos 90 está inaugurado. Quem não soube do SWU semana passada, que viva pra ver! No que me cabe, enxerto também o Exílio Rock na onda, ora pois.

Isto aqui me remete a tempos de Mtv ligada de madrugada, fita sempre pronta no videocassete (para gravações inesperadas), enquanto fazia qualquer outra coisa, como cortar unha do pé ou ler textos da faculdade.

Sons:

  1. Suave And Suffocated
  2. Walking Through Syrup
  3. Legoland
  4. Swallowing Air
  5. Who Goes First?
  6. Tantrum
  7. Not Sleeping Around
  8. You Don’t Want to Do That
  9. Leg End In His Own Boots
  10. Two And Two Made Five
  11. Fracture (instrumental)
  12. Spring
  13. Intact

E o Ned’s Atomic Dustbin foi banda inglesa de safra de bandas de nomes extravagantes, como ainda Carter the Unstoppable Sex Machine e Pop Will Eat Itself, que descobri recentemente terem sido parte duma certa “grebo scene” (graças ao www.allmusic.com, fonte de todo mundo que resolva se meter a falar de música), que sucintamente misturavam rock alternativo, psicodelia e alguma espécie de, se não dance music (ugh!), groove dançante. Mas não poperô ou de bateria programada. Tocada por gente, em instrumentos de verdade.

Haja visto a abertura em “Suave And Suffocated” e o refrão de “Who Goes First?”, grooveados e dançantes, mas com 2 bumbos!

Cena grebo essa de entressafra, escondida entre as bandas sincopadas de Manchester – Happy Mondays, Inspiral Carpets, Stone Roses, The Charlatans – do fim dos 80′s, já dadas à malemolência desencanada, e umas popices noventistas derivativas dela que atingiram o mainstream, como Jesus Jones (eca!) e os one hit wonders The Soup Dragons e EMF.

“Are You Normal?” (1992) foi o 2º álbum dos caras, que eram promessa de vingar desde o 1º single, “Kill Your Television”, lançado na estréia “God Fodder” (1991), mas não aconteceu. E não, no meu entender, por culpa deles, que aqui cometeram músicas uniformemente agradáveis e “pra cima”, com o destaque insólito a mais de terem DOIS BAIXISTAS em sua formação.

Coisa diferente ouvir músicas com um dos baixos, distorcido, puxando um riff ou cometendo uns solinhos, algo que remete claramente a New Order na 1ª, 2ª, 3ª e até 4ª primeiras audições ahah Vocalista sem afetações (vocal limpo e animado) também causa impressão semelhante.

Imagem de Amostra do You Tube

No entanto, a capa aloprada, as letras auto-irônicas e o clima descontraído fazem do disco e da banda algo diferente a ser buscado, caso se tenha o interesse de buscar músicas diferentes. Música pop paudurescente e escapista no bom sentido. Duma cena obscura que inequivocadamente influenciou até o U2 safra “Achtung Baby” [resenhado aqui há 15 dias], como não?

E que sei lá se periga ser objeto dalgum revival em festivais por aqui, tipo o próximo SWU. Oportunidade parece haver, haja visto terem voltado à ativa (há vídeos no You Tube de shows ocorridos ano passado). Provavelmente não, por parecer não terem deixado órfãos tantos assim, que não meia dúzia de outros notívagos náufragos de Mtv noventista, fora eu, que poderiam dar a mínima.

Seriam mais uma dentre tantas bandas mequetrefes oitentistas de calibre pop, não fossem o (dizem) guitarrista inventivo e o vocalista messiânico. O mais messiânico de todos, capaz de tornar hit mundial o conflito entre católicos e protestantes.

Com a falência do Police no início dos 80′s, tiveram pouca concorrência – fora muita assessoria – para DOMINAREM a década. Nos estertores dela, fecharam pra balanço. “Sonhar de novo”. E o fizeram.

Imagem de Amostra do You Tube

Quando voltaram em 1991, eram outra banda. O single inicial, “The Fly”, incomodou a quem era fã convicto: modernice baterística, saturação guitarrística, vocais esquisitos e sombrios, visual com jaqueta de couro. Foi a porta de entrada pruma nova encarnação, que tudo fez para escarnecer a eles próprios, a mídia e os megashows – algo que o Sigue Sigue Sputnik tinha tentado 5 anos antes, mas ninguém deu bola.

Talvez nem o U2.

Pessoalmente, foi quando comecei a gostar dos caras: “Even Better Than The Real Thing”, “One” (e seus 2 clipes), “Zoo Station”, “Who’s Gonna Ride Your Wild Horses”, e tal. “Mysterious Ways” não gostei e continuo detestando. Turnê pirotécnica Zoo Tv emendada no melhor disco da banda, “Zooropa” (duma porralouquice genial), geradora de turnê babilônica conseguinte + vhs (depois, dvd) faraônico legalzinho.

A encarnação foi arrefecendo em meio ao cinismo e às deficiências técnicas dos sujeitos: veio o fajuto “Pop”, e o que lançaram em seguida ficou 50% resíduo da fase noventista com 50% do ranço oitentista. Bono chatonildo, carismatopata, volta e meia cogitado pra Nobel da Paz. Pff!…

O ponto é: faz 20 anos duma das maiores reinvenções – senão da MAIOR – duma banda. No rock, no pop, no universo. De “Achtung Baby”.

Que, além disso, foi culpado por:

  • fase horrenda de Def Leppard (“Slang”)
  • fase assumidamente comercial e “artística” do Metallica: Lars Ulrich cansou de creditar a “Achtung Baby” e a “Zooropa” os seus “Load” e “Reload”
  • guinadas infelizes barra falidas de tantas outras bandas, das quais não lembro agora

Alguém se lembra ou se importa?

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