Ratos De Porão

O post é especialmente dedicado a quem:

  • consegue sacar cada sílaba pronunciada pelo João Gordo nos sons do Ratos De Porão mesmo sem os encartes à mão
  • considera John Tardy (Obituary) o supra-sumo e ISO 9001 da expressividade fonética em todo o heavy metal
  • consegue seguir as letras do “Reek Of Putrefaction” (Carcass) no encarte sem se perder uma única vez

Você preenche tais requisitos? Pois além de te considerar meu herói barra minha heroína, faço questão de apresentar Sheila Chandra

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E pedir: dá pra me explicar?

ahah

“Inocentes”, Inocentes, 1989, WEA

sons: ANIMAL URBANO / MAIS UM NA MULTIDÃO / A FACE DE DEUS / PROMESSAS / A LEI DO CÃO / O HOMEM QUE BEBIA DEMAIS / NOSSO TEMPO / MARCHA DAS MÁQUINAS / A VOZ DO MORRO / GAROTOS DO SUBÚRBIO

formação: Clemente (voz, letras, guitarra base), Ronaldo (guitarra solo), André (baixo), Tonhão (bateria)

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Tem capa de disco que é emblemática, e a de “Inocentes”, a meu ver, fora representativa pra cacete do nome da banda, foi também um belo FODA-SE.

Um “foda-se” à Warner (vulgo WEA), que contratara a banda sem muito fazer por ela em termos de maior projeção ou coisa do tipo. Um tanto por culpa da banda também, por se atreverem a não amenizar discurso, tampouco som, pra ficarem mais palatáveis.

Os Inocentes já haviam lançado pela múlti o ep “Pânico Em SP” (de 1986) e o SOBERBO “Adeus Carne” (1987. Pra mim, um dos melhores discos do rock brasileiro de todos os tempos) e este álbum, auto-intitulado, foi o canto do cisne na empresa: na seqüência dele, passariam a uma carreira errática com inúmeras mudanças de formação e por vários selos, tais como Cameratti (de “Estilhaços”), Eldorado (“Subterrâneos”), Paradoxx (“Ruas” e “Embalado A Vácuo”), Abril Music (“O Barulho Dos Inocentes”, disco de covers), RDS (“20 Anos Ao Vivo”) e Ataque Frontal (“Labirinto”, de 2004, e até o momento o último desovado).

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Tanto faz isso, afinal se trata duma banda punk. Embora não estereotipadamente punk, já que desde “Pânico Em SP” os caras vinham delineando novos modos de dizerem as coisas, e também de mostrarem o próprio som.

O “Adeus Carne” anterior já continha som com violão folk (“Tambores”), piano jazz (“Cidade Chumbo”), versão de som mpbístico (“Pesadelo”, dum tal Paulo César Pinheiro) e ao final de sua faixa-título instrumental rolava uma roda de samba (!!) – sem, no entanto, macular ou deturpar qualquer VÍRGULA de seus protestos e relatos.

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“Inocentes” contém uma evolução e melhor consolidação dessa versatilidade, por meio de blues-punk (“O Homem Que Bebia Demais”), sons tendendo ao rockabilly (“A Lei Do Cão”), um que era um baião acelerado (“Promessas”), outro contendo violão sem amenizar (“Nosso Tempo”), entre outros trechos – sobretudo guitarrísticos – repletos de licks, solos bem trabalhados e um trampo de duas guitarras bem ACIMA DA MÉDIA pra bandas punk.

Clemente e Ronaldo fazem e acontecem por aqui nesse sentido. André e Tonhão, irmãos, cumprem a função básica da cozinha punk: segurar a onda, manter o pique. Sem invencionices, mas também sem comedimentos. E com timbragem e produção irretocáveis: produção esta, aliás, a cargo de Roberto Frejat, do Barão Vermelho.

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Talvez se possa dizer haver aqui 2 sons tipicamente punks, os ali pro fim “Marcha Das Máquinas” e “Garotos Do Subúrbio” – hino da banda, outrora gravado em álbum independente (“Miséria e Fome”, pela finada Devil Discos, em 1983) e aqui registrado de forma mais pungente e VIRIL: guitarras saturadas pra todo lado, caixa de bateria lotada de reverb ecoando, baixo no talo – embora os 2 primeiros, “Animal Urbano” e “Mais Um Na Multidão”, também pudessem se encaixar na descrição.

Sendo esses, entretanto, sons punks EVOLUÍDOS: contendo partes (como introdução, riff principal, mudanças sutis de andamento etc.). Sem nenhum demérito, e a servir de lição pras bandelhas que se dizem punk de hoje em dia, escravas e reféns dos mesmos 3 acordes de outrora e de sempre.

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O maior destaque, porém, em se tratando de Inocentes, são as letras de Clemente, o sujeito de melhor DISCURSO do punk nacional, disparado.

Porque nunca foi daqueles punks chorões que se faziam de vítimas, bradando – em vão – pelo fim do “sistema” e oferecendo discursos maniqueístas de explorados bonzinhos versus sistema opressor/políticos filhos da puta simplesmente: o sujeito, até mais que em discos anteriores, relata em 1ª pessoa o cotidiano de pessoas sufocadas pela metrópole indiferente e fria. Como

“acho que gritei alto demais/ninguém me escutou/só eu gritei” (em “Mais Um Na Multidão”)

“esse é todo o nosso tempo/o amanhã é caro para nós/a verdade chega tão feroz/esse é o nosso tempo” (em, óbvio, “Nosso Tempo”)

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“vivia nas ruas com as prostitutas/ele não valia um centavo/não tinha nome, nem sobrenome/alguns o chamavam de farrapo” (em “O Homem Que Bebia Demais”)

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A letra de “Promessas”, melhor música por aqui também (tem um solo muito legal), vai numa linha de RESPONSABILIZAR as próprias pessoas pelas desgraças, inclusive eleitorais, que lhe acometem. De um modo bem mais direto que o discurso dum Ratos De Porão, no meu entender. Exemplo:

“a gente acredita em quem não merece/nossa memória é curta, a gente sempre esquece” e o refrão com “Nada: é o que a gente recebe/Nada: é o que a gente merece”.

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“Marcha Das Máquinas” tem discurso ecológico nada demagógico e bem a ver com os dias atuais. Vide “Destruíram o céu azul/Mastigaram meu amanhecer/A fumaça expulsa o ar/Nuvens negras tomam seu lugar”

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Por outro lado, temos “A Face De Deus”, de letra claramente herege e TIRO NO PÉ (pois se a múlti talvez os esperasse colocar em trilha de novela global, se deu mal), embora numa 1ª ouvida se possa pensar ser uma balada dos caras. E da qual faço questão de citar a letra toda:

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A Face De Deus
Eu vi a face de Deus/Pichada no muro
Lá longe, na cidade/No seu beco mais escuro
Onde as crianças tomam drogas/Os bêbados se arrastam
Onde Judas perdeu as botas/Onde apagaram o dedo-duro

Eu vi a face de Deus
Pichada no muro
Eu vi

Vi salmos estilhaçados/Que nem cacos de vidro
Corações pisoteados/Chorando, pedindo abrigo
Vi cães sufocados/Na câmara de gás
Vi padres assassinados/Por abençoarem Barrabás

Eu vi a face de Deus
Pichada no muro
Ah, eu vi, eu vi
A face de Deus, eu vi

Vi Cristo no pau de arara/Ficou três dias de bico calado
Marias sorrindo felizes/Com seu sorrisos desdentados
Vi a casa de Noé/Alagada num dilúvio
Eu vi os doze apóstolos/Brigando num trem de subúrbio

Eu vi a face de Deus…

Eu vi o Menino Jesus/Abandonado numa esquina
Francisco de Assis/Passando cocaína
Vi anjos espatifados/Por não saberem voar
Vi crentes no inferno/Por não aprenderem a rezar

Eu vi a face de Deus…

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O que gerou esse som? Fora uma execução ou outra em rádio rock, apenas uma versão MENOR do Não Religião [de "Não Saiu Em Cd" a eles dedicado em setembro último]. E se não é coisa digna de hordas norueguesas posers, ao menos ainda não tem paralelo EM PORTUGUÊS.

Ou teria?

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Vou concluindo apenas opinando não gostar de “A Voz De Morro”, da letra mais clichê (e mais próxima das letras de rap atuais), som em que acho que a banda se perdeu um pouco, tentando groovear ou ser mais acessível. Mas nada que comprometa o ENCANTO desse disco, verdadeira pérola aos porcos.

E pérola aos POUCOS também, pois infelizmente se trata do ÚNICO trabalho dos Inocentes que não saiu em cd. E que certamente jamais sairá.

Cabendo apenas baixar por aí. Tendo as letras próximas. Assim.

“Pegaram Jesus Prá Cristo”, Não Religião, 1991, Estúdio Eldorado

sons: ESTADO DE SÍTIO* / IGREJA COMERCIAL / CENSURA NÃO / TE DÓI / MULHER NO CAOS NO PAÍS DO CARNAVAL / QUALQUER TIPO DE RELIGIÃO* / JESUS CRUCIFICADO NO POSTE DA LIGHT* / A VOZ DA CONSCIÊNCIA / E ELES ATÉ AS PORTAS VÃO LEVAR / PEGARAM JESUS PRÁ CRISTO / GOSPEL

formação: Kley (guitarra), Tatola (voz), Walter (baixo), Norberto (bateria)

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Pra quem não é de São Paulo, ou tão veterano, o Não Religião surgiu – embora já existisse – como “vencedor” dum concurso de bandas num extinto programa da TV Cultura, “Boca Livre“, apresentado por Kid Vinil. Tinha como figura mais proeminente o Tatola, que por ser radialista à época na 89fm (e depois, na Brasil 2000fm, da qual o mesmo Kid Vinil é hoje diretor), conseguiu uma divulgação maior pra banda.

“Pegaram Jesus Prá Cristo” foi o 2º de 3 discos lançados, todos pela Eldorado: o inicial foi “A Verdadeira História De Um Brasileiro” (que chegou a ter hits em rádios-rock daqui, como “Juventude à Vácuo”, “Brasil” e a versão de “Coração de Papel”, de Sérgio Reis [!!]), ao passo que o último, de nome exemplar, “Ninguém Me Escuta” (o ideal talvez tivesse sido sair “Ninguém NOS Escuta”), chegou a render um hitzinho, “Pecado”, fora uma regravação anêmica de “A Face De Deus”, do Inocentes. Além de conter 6 sons dos 2 discos anteriores (nem regravados nem ao vivo: pinçados na cara dura dos outros!) pra encher lingüiça.

"A Verdadeira História De Um Brasileiro" (1990)

"Ninguém Me Escuta" (1994)

Porra, mas e o que Não Religião tem a ver com thrash metal?

Nada tanto assim, mas em seus melhores aspectos e momentos, a estrutura dos sons – sobretudo neste álbum – e alguma ousadia e arroubo técnico ínfimo. Trocando em miúdos: os caras eram punks, mas tentavam estender os próprios limites e inspiração pro metal, mesmo que sem o talento e a pegada dum Ratos De Porão.

Os sons têm palhetadas (nada de acordes soltos), riffs, paradinhas, viradas, partes diferentes (intros/solos/variações de andamento), dobras de guitarras. MUITO MAL TOCADAS, mas têm. O que confere toda a graça em se ouvir a banda e este trabalho. Estivessem ativos, não teria pra CPMerda 22 nem pra esses hardcores melodiCUzinhos fofoletes.

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Entretanto, é nas letras e no vocal que a coisa fica FEIA, e estraga a apreciação de esforços demonstrada. Insisto: instrumentalmente a banda tinha lá sua manha – sobretudo o guitarrista e o baterista (como no final de “Mulher No Caos No País Do Carnaval”) – e química, mas o que dizer de letras que, fora virem com erros de português em pleno encarte (que já começam no “Prá” da capa) e de concordância (uns pra forçar rima como em “Qualquer Tipo de Religião”) – e só não rola isso em “Gospel”, instrumental – apresentam pérolas de absoluta falta de sentido e/ou coerência como “Te Dói”, “E Eles Até As Portas Vão Levar”, “Censura Não” ou “Igreja Comercial”?

“A Voz Da Consciência” é de um ridículo inominável e merece comentário à parte: mistura versos avulsos, e sem alterações, de Legião Urbana (“Monte Castelo”, “Sete Cidades”, “Meninos e Meninas” e “Eu Era Um Lobisomem Juvenil”), de uma forma até genial e dadaísta, porque lhes tiram totalmente qualquer sentido! “Mulher No Caos…”, já citada, antecipa a cafajestice dum Tihuana em uns 10 anos (“eu tenho mulher, não sei prá que/ eu quero mulher só prá comer”), e acho também abjeta.

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Os 3 sons acima asteriscados são os que considero absolutamente melhores nos quesitos letra E música juntos. E foram hits.

1) “Estado de Sítio” consegue ser sensível como nunca um CPMerda conseguirá. Soa até poética. Fora o riff dissonante e em contratempo, bastante distinto de andamentos ska de punks que conseguem tocar melhor (pois punk quando descobre um troço chamado CONTRATEMPO, resolve tocar ska a torto e a direito).

2) “Qualquer Tipo de Religião”, a despeito da rima forçada, tem na letra um tratado anarco-libertário que JAMAIS LI em banda nacional. Teve clipe na mtv, tosco tosco, que encerrava com um molequinho nu vestindo de anjo mijando em vela acesa numa Igreja (Noruega perde!). E o som é cadenciado, com solo e palhetada cavalgada. Curioso.

3) “Jesus Crucificado No Poste Da Light”, por sua vez, é duma inspiração ímpar. Crítica à Igreja Universal assumida, tocou muito em rádio, tem o riff + inspirado, e a intersecção letra/vocais produz o melhor resultado (fora a faixa-título, impagável nas subidas de tons literalmente executadas por Tatola). Por ser quase tudo narração – o que de melhor o cara fazia…

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Por curiosidade, essa mesma faixa-título e “E Eles Até As Portas Vão Levar” valem um download, caso existam. Já o riff de “Censura Não” é chupim descarado de alguma coisa que eu não consigo lembrar.

“Gospel” encerra o disco, falsamente conceitual, de forma melancólica: trata-se dum dedilhado de guitarra que começa errado já na 1ª palhetada, de inspiração e técnica zero e timbragem medonha. Dedilhado horroroso mesmo. Coisa que qualquer moleque atualmente com duas semanas de IG&T faz melhor.

Um outro motivo razoável prá – ops! – aqui resenhá-lo (o disco) é sua capa, fodida. Teco duma pintura de Hieronymus Bosch, “Cristo Carregando a Cruz”, que os coloca no mesmo patamar do Celtic Frost (cuja capa do “Into the Pandemonium”, retirada de “O Jardim Das Delícias”, também o é)!

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E apesar da crítica ruim, vale constar que é todo bem gravadinho. Não tem tosqueira de produção punk amadora. Ouve-se tudo. “Pegaram Jesus Prá Cristo” é daqueles discos únicos: plenos em sua tosquice, encantador pela ruindade e louvável pelas boas intenções abomináveis. Racionalizar demais o priva de qualquer valor.

Torço pra que não demore a hora de revistas consagradas tipo Valhalla (principalmente), Roadie Crew e Rock Brigade o (re)descubram. Pra daí eu arrotar aos 4 ventos o pioneirismo do Thrash Com H [agora o Exílio Rock] em resenhá-lo eheheheh

E que eu saiba, jamais saiu em cd (nem os outros 2; poderiam sair juntos num 3 em 1. Aposto que caberia tudo), mas existem exemplares à disposição por 5 contos lá na Devil Discos, na Galeria. É pegar e NÃO largar!

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PS – resenha publicada originalmente no Thrash Com H em 15 de Outubro de 2004, devidamente recauchutada, corrigida e adaptada nuns pedaços pra cá

PS 2 – a Devil Discos faliu. Virou lojinha de roupinhas e bolsas pra emo e indie. Quem não achar sons na internet, só achará os álbuns dos caras em sebo mesmo, e olhe lá

PS 3 -  o baixista Walter, após sair da banda (ou fim dela, não lembro), teve passagem-relâmpago pelo Ratos De Porão, no obscuraço “Just Another Crime… In Massacreland”, sob a alcunha “Bart”

PS 4 – incrível como a banda pouco deixou marcas: vídeos no You Tube praticamente não há, o clipe de “Qualquer Tipo De Religião” não encontrei (os vídeos aqui colados foram os melhores que encontrei), e comunidade orkutiana existe só uma, com meia dúzia de gatos pingados (na verdade, 41. Eu incluso) e apenas 1 post abandonado às traças

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