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NÃO SAIU EM CD

“Pegaram Jesus Prá Cristo”, Não Religião, 1991, Estúdio Eldorado

sons: ESTADO DE SÍTIO* / IGREJA COMERCIAL / CENSURA NÃO / TE DÓI / MULHER NO CAOS NO PAÍS DO CARNAVAL / QUALQUER TIPO DE RELIGIÃO* / JESUS CRUCIFICADO NO POSTE DA LIGHT* / A VOZ DA CONSCIÊNCIA / E ELES ATÉ AS PORTAS VÃO LEVAR / PEGARAM JESUS PRÁ CRISTO / GOSPEL

formação: Kley (guitarra), Tatola (voz), Walter (baixo), Norberto (bateria)

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Pra quem não é de São Paulo, ou tão veterano, o Não Religião surgiu – embora já existisse – como “vencedor” dum concurso de bandas num extinto programa da TV Cultura, “Boca Livre“, apresentado por Kid Vinil. Tinha como figura mais proeminente o Tatola, que por ser radialista à época na 89fm (e depois, na Brasil 2000fm, da qual o mesmo Kid Vinil é hoje diretor), conseguiu uma divulgação maior pra banda.

“Pegaram Jesus Prá Cristo” foi o 2º de 3 discos lançados, todos pela Eldorado: o inicial foi “A Verdadeira História De Um Brasileiro” (que chegou a ter hits em rádios-rock daqui, como “Juventude à Vácuo”, “Brasil” e a versão de “Coração de Papel”, de Sérgio Reis [!!]), ao passo que o último, de nome exemplar, “Ninguém Me Escuta” (o ideal talvez tivesse sido sair “Ninguém NOS Escuta”), chegou a render um hitzinho, “Pecado”, fora uma regravação anêmica de “A Face De Deus”, do Inocentes. Além de conter 6 sons dos 2 discos anteriores (nem regravados nem ao vivo: pinçados na cara dura dos outros!) pra encher lingüiça.

"A Verdadeira História De Um Brasileiro" (1990)

"Ninguém Me Escuta" (1994)

Porra, mas e o que Não Religião tem a ver com thrash metal?

Nada tanto assim, mas em seus melhores aspectos e momentos, a estrutura dos sons – sobretudo neste álbum – e alguma ousadia e arroubo técnico ínfimo. Trocando em miúdos: os caras eram punks, mas tentavam estender os próprios limites e inspiração pro metal, mesmo que sem o talento e a pegada dum Ratos De Porão.

Os sons têm palhetadas (nada de acordes soltos), riffs, paradinhas, viradas, partes diferentes (intros/solos/variações de andamento), dobras de guitarras. MUITO MAL TOCADAS, mas têm. O que confere toda a graça em se ouvir a banda e este trabalho. Estivessem ativos, não teria pra CPMerda 22 nem pra esses hardcores melodiCUzinhos fofoletes.

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Entretanto, é nas letras e no vocal que a coisa fica FEIA, e estraga a apreciação de esforços demonstrada. Insisto: instrumentalmente a banda tinha lá sua manha – sobretudo o guitarrista e o baterista (como no final de “Mulher No Caos No País Do Carnaval”) – e química, mas o que dizer de letras que, fora virem com erros de português em pleno encarte (que já começam no “Prá” da capa) e de concordância (uns pra forçar rima como em “Qualquer Tipo de Religião”) – e só não rola isso em “Gospel”, instrumental – apresentam pérolas de absoluta falta de sentido e/ou coerência como “Te Dói”, “E Eles Até As Portas Vão Levar”, “Censura Não” ou “Igreja Comercial”?

“A Voz Da Consciência” é de um ridículo inominável e merece comentário à parte: mistura versos avulsos, e sem alterações, de Legião Urbana (“Monte Castelo”, “Sete Cidades”, “Meninos e Meninas” e “Eu Era Um Lobisomem Juvenil”), de uma forma até genial e dadaísta, porque lhes tiram totalmente qualquer sentido! “Mulher No Caos…”, já citada, antecipa a cafajestice dum Tihuana em uns 10 anos (“eu tenho mulher, não sei prá que/ eu quero mulher só prá comer”), e acho também abjeta.

Imagem de Amostra do You Tube

Os 3 sons acima asteriscados são os que considero absolutamente melhores nos quesitos letra E música juntos. E foram hits.

1) “Estado de Sítio” consegue ser sensível como nunca um CPMerda conseguirá. Soa até poética. Fora o riff dissonante e em contratempo, bastante distinto de andamentos ska de punks que conseguem tocar melhor (pois punk quando descobre um troço chamado CONTRATEMPO, resolve tocar ska a torto e a direito).

2) “Qualquer Tipo de Religião”, a despeito da rima forçada, tem na letra um tratado anarco-libertário que JAMAIS LI em banda nacional. Teve clipe na mtv, tosco tosco, que encerrava com um molequinho nu vestindo de anjo mijando em vela acesa numa Igreja (Noruega perde!). E o som é cadenciado, com solo e palhetada cavalgada. Curioso.

3) “Jesus Crucificado No Poste Da Light”, por sua vez, é duma inspiração ímpar. Crítica à Igreja Universal assumida, tocou muito em rádio, tem o riff + inspirado, e a intersecção letra/vocais produz o melhor resultado (fora a faixa-título, impagável nas subidas de tons literalmente executadas por Tatola). Por ser quase tudo narração – o que de melhor o cara fazia…

Imagem de Amostra do You Tube

Por curiosidade, essa mesma faixa-título e “E Eles Até As Portas Vão Levar” valem um download, caso existam. Já o riff de “Censura Não” é chupim descarado de alguma coisa que eu não consigo lembrar.

“Gospel” encerra o disco, falsamente conceitual, de forma melancólica: trata-se dum dedilhado de guitarra que começa errado já na 1ª palhetada, de inspiração e técnica zero e timbragem medonha. Dedilhado horroroso mesmo. Coisa que qualquer moleque atualmente com duas semanas de IG&T faz melhor.

Um outro motivo razoável prá – ops! – aqui resenhá-lo (o disco) é sua capa, fodida. Teco duma pintura de Hieronymus Bosch, “Cristo Carregando a Cruz”, que os coloca no mesmo patamar do Celtic Frost (cuja capa do “Into the Pandemonium”, retirada de “O Jardim Das Delícias”, também o é)!

Imagem de Amostra do You Tube

E apesar da crítica ruim, vale constar que é todo bem gravadinho. Não tem tosqueira de produção punk amadora. Ouve-se tudo. “Pegaram Jesus Prá Cristo” é daqueles discos únicos: plenos em sua tosquice, encantador pela ruindade e louvável pelas boas intenções abomináveis. Racionalizar demais o priva de qualquer valor.

Torço pra que não demore a hora de revistas consagradas tipo Valhalla (principalmente), Roadie Crew e Rock Brigade o (re)descubram. Pra daí eu arrotar aos 4 ventos o pioneirismo do Thrash Com H [agora o Exílio Rock] em resenhá-lo eheheheh

E que eu saiba, jamais saiu em cd (nem os outros 2; poderiam sair juntos num 3 em 1. Aposto que caberia tudo), mas existem exemplares à disposição por 5 contos lá na Devil Discos, na Galeria. É pegar e NÃO largar!

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PS – resenha publicada originalmente no Thrash Com H em 15 de Outubro de 2004, devidamente recauchutada, corrigida e adaptada nuns pedaços pra cá

PS 2 – a Devil Discos faliu. Virou lojinha de roupinhas e bolsas pra emo e indie. Quem não achar sons na internet, só achará os álbuns dos caras em sebo mesmo, e olhe lá

PS 3 -  o baixista Walter, após sair da banda (ou fim dela, não lembro), teve passagem-relâmpago pelo Ratos De Porão, no obscuraço “Just Another Crime… In Massacreland”, sob a alcunha “Bart”

PS 4 – incrível como a banda pouco deixou marcas: vídeos no You Tube praticamente não há, o clipe de “Qualquer Tipo De Religião” não encontrei (os vídeos aqui colados foram os melhores que encontrei), e comunidade orkutiana existe só uma, com meia dúzia de gatos pingados (na verdade, 41. Eu incluso) e apenas 1 post abandonado às traças

FUTURO DO PRETÉRITO

Passeio legal aqui em São Paulo é o Centro Cultural São Paulo, vulgo Centro Cultural Vergueiro, de opções culturais as mais abrangentes: cursos de desenho e canto gratuitos, sessões de cinema, de teatro e shows a custo irrisório (R$12 em média, com meia-entrada a R$6), a biblioteca bastante conhecida, a Gibiteca Henfil, farta, e também a Discoteca Oneyda Alvarenga, reativada em março último.

E motivo real deste post: trata-se de lugar onde fui algumas vezes recentemente com sujeito com quem trabalho (salve, Antonio Celso!), que é quase como uma FENDA NO TEMPO.

Explico: em tempos atuais de internet, mp3, iPod e Rock Band, o que pensar dum lugar onde se pode consultar ÁLBUNS como em biblioteca (ficha preenchida, número de tombo, essas coisas) e pedir pra ouví-los ali na hora, confortavelmente sentados em poltronas e a bordo de fones de ouvido?

Com o detalhe anacrônico maior de todos: álbuns que se ouve diretamente de vinis ou fitas cassete!

Tem cd’s (alguns) por ali também, assim como acervo incomensurável de discos de 78 rotações (pra dar idéia do quão antigos: há discos de Aracy de Almeida…), que disseram estarem sendo digitalizados.

Mas esse acervo tem também característica que pode afugentar muita gente por aqui: os álbuns, artistas e músicas são todos brasileiros. Não há nada gringo, por a ênfase ser música brasileira antiga: tanto que Antonio Celso andou por ali pesquisando Chiquinha Gonzaga, Orlando Silva e Carlos Galhardo, o que pra pessoas com igual apreço por PESQUISA, é coisa mais que valiosa.

Pois muitos desses artistas simplesmente não têm álbuns lançados em cd, havendo, quando muito, coletâneas mequetrefes e xexelentas da mesma dúzia de sons óbvios numas e noutras.

Material mais contemporâneo, tipo rock nacional de Titãs, Violeta De Outono ou Legião Urbana, encontra-se também disponível. Coisas mais metal, procurei e achei o “Arise” (Sepultura) vinílico e alguma coisa de Ratos De Porão, embora tenha vaga lembrança de ter também pesquisado Viper e Vodu, sem entretanto recordar haver visto registros ali de fato.

(memória é um troço traiçoeiro)

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Semana passada passamos por lá, e escolhi ouvir “Sonho De Um Anarquista”, do Bocato, álbum lançado pela Baratos Afins nos 80’s e JAMAIS RELANÇADO EM CD. Sons legais, capa genial (segue abaixo) e poltrona confortável tornaram a estada ali na Discoteca momento bastante agradável, o que probleminha básico com os fones (meio mau contato) nem conseguiu estragar.

Enfim: é programa que recomendo pra servir de pit-stop a quem passa por ali correndo e talvez prefira “matar” um pouco de tempo antes de encarar trânsito selvagem e/ou transporte público insalubre da hora do rush, ou mesmo por meros e puros ESCAPISMO e DESENCANAÇÃO. Ainda que a experiência pareça meio um mp3 a lenha.

Não precisa fazer cadastro, tampouco pagar nada.

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Fecho o post com aspecto reforçador da experiência temporalmente deslocada duma ida à Oneyda Alvarenga, assim como da audição do Bocato: uma citação contida na contra-capa desse Lp.

Que, em linguajar e ortografia que parecia já ultrapassado naqueles idos de 1987 (ano de lançamento), e que talvez representasse alguma brincadeira adicional (vai saber se não…), assim diz:

ESTA GRAVAÇÃO DE ALTA FIDELIDADE foi cientificamente planejada de modo a apresentar a mais alta qualidade de reprodução, qualquer que seja o fonógrafo usado, novo ou velho. Se V.S. possui um aparelho de som estereofônico, também êste disco apresentará um som de alta fidelidade perfeita. Em resumo, V.S. pode comprar êste disco sem o mais leve receio de que êle venha a tornar-se obsoleto no futuro.


Tornou-se, afinal?

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