“Inocentes”, Inocentes, 1989, WEA
sons: ANIMAL URBANO / MAIS UM NA MULTIDÃO / A FACE DE DEUS / PROMESSAS / A LEI DO CÃO / O HOMEM QUE BEBIA DEMAIS / NOSSO TEMPO / MARCHA DAS MÁQUINAS / A VOZ DO MORRO / GAROTOS DO SUBÚRBIO
formação: Clemente (voz, letras, guitarra base), Ronaldo (guitarra solo), André (baixo), Tonhão (bateria)
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Tem capa de disco que é emblemática, e a de “Inocentes”, a meu ver, fora representativa pra cacete do nome da banda, foi também um belo FODA-SE.
Um “foda-se” à Warner (vulgo WEA), que contratara a banda sem muito fazer por ela em termos de maior projeção ou coisa do tipo. Um tanto por culpa da banda também, por se atreverem a não amenizar discurso, tampouco som, pra ficarem mais palatáveis.
Os Inocentes já haviam lançado pela múlti o ep “Pânico Em SP” (de 1986) e o SOBERBO “Adeus Carne” (1987. Pra mim, um dos melhores discos do rock brasileiro de todos os tempos) e este álbum, auto-intitulado, foi o canto do cisne na empresa: na seqüência dele, passariam a uma carreira errática com inúmeras mudanças de formação e por vários selos, tais como Cameratti (de “Estilhaços”), Eldorado (“Subterrâneos”), Paradoxx (“Ruas” e “Embalado A Vácuo”), Abril Music (“O Barulho Dos Inocentes”, disco de covers), RDS (“20 Anos Ao Vivo”) e Ataque Frontal (“Labirinto”, de 2004, e até o momento o último desovado).
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Tanto faz isso, afinal se trata duma banda punk. Embora não estereotipadamente punk, já que desde “Pânico Em SP” os caras vinham delineando novos modos de dizerem as coisas, e também de mostrarem o próprio som.
O “Adeus Carne” anterior já continha som com violão folk (“Tambores”), piano jazz (“Cidade Chumbo”), versão de som mpbístico (“Pesadelo”, dum tal Paulo César Pinheiro) e ao final de sua faixa-título instrumental rolava uma roda de samba (!!) – sem, no entanto, macular ou deturpar qualquer VÍRGULA de seus protestos e relatos.
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“Inocentes” contém uma evolução e melhor consolidação dessa versatilidade, por meio de blues-punk (“O Homem Que Bebia Demais”), sons tendendo ao rockabilly (“A Lei Do Cão”), um que era um baião acelerado (“Promessas”), outro contendo violão sem amenizar (“Nosso Tempo”), entre outros trechos – sobretudo guitarrísticos – repletos de licks, solos bem trabalhados e um trampo de duas guitarras bem ACIMA DA MÉDIA pra bandas punk.
Clemente e Ronaldo fazem e acontecem por aqui nesse sentido. André e Tonhão, irmãos, cumprem a função básica da cozinha punk: segurar a onda, manter o pique. Sem invencionices, mas também sem comedimentos. E com timbragem e produção irretocáveis: produção esta, aliás, a cargo de Roberto Frejat, do Barão Vermelho.
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Talvez se possa dizer haver aqui 2 sons tipicamente punks, os ali pro fim “Marcha Das Máquinas” e “Garotos Do Subúrbio” – hino da banda, outrora gravado em álbum independente (“Miséria e Fome”, pela finada Devil Discos, em 1983) e aqui registrado de forma mais pungente e VIRIL: guitarras saturadas pra todo lado, caixa de bateria lotada de reverb ecoando, baixo no talo – embora os 2 primeiros, “Animal Urbano” e “Mais Um Na Multidão”, também pudessem se encaixar na descrição.
Sendo esses, entretanto, sons punks EVOLUÍDOS: contendo partes (como introdução, riff principal, mudanças sutis de andamento etc.). Sem nenhum demérito, e a servir de lição pras bandelhas que se dizem punk de hoje em dia, escravas e reféns dos mesmos 3 acordes de outrora e de sempre.
O maior destaque, porém, em se tratando de Inocentes, são as letras de Clemente, o sujeito de melhor DISCURSO do punk nacional, disparado.
Porque nunca foi daqueles punks chorões que se faziam de vítimas, bradando – em vão – pelo fim do “sistema” e oferecendo discursos maniqueístas de explorados bonzinhos versus sistema opressor/políticos filhos da puta simplesmente: o sujeito, até mais que em discos anteriores, relata em 1ª pessoa o cotidiano de pessoas sufocadas pela metrópole indiferente e fria. Como
“acho que gritei alto demais/ninguém me escutou/só eu gritei” (em “Mais Um Na Multidão”)
“esse é todo o nosso tempo/o amanhã é caro para nós/a verdade chega tão feroz/esse é o nosso tempo” (em, óbvio, “Nosso Tempo”)
“vivia nas ruas com as prostitutas/ele não valia um centavo/não tinha nome, nem sobrenome/alguns o chamavam de farrapo” (em “O Homem Que Bebia Demais”)
A letra de “Promessas”, melhor música por aqui também (tem um solo muito legal), vai numa linha de RESPONSABILIZAR as próprias pessoas pelas desgraças, inclusive eleitorais, que lhe acometem. De um modo bem mais direto que o discurso dum Ratos De Porão, no meu entender. Exemplo:
“a gente acredita em quem não merece/nossa memória é curta, a gente sempre esquece” e o refrão com “Nada: é o que a gente recebe/Nada: é o que a gente merece”.
“Marcha Das Máquinas” tem discurso ecológico nada demagógico e bem a ver com os dias atuais. Vide “Destruíram o céu azul/Mastigaram meu amanhecer/A fumaça expulsa o ar/Nuvens negras tomam seu lugar”
Por outro lado, temos “A Face De Deus”, de letra claramente herege e TIRO NO PÉ (pois se a múlti talvez os esperasse colocar em trilha de novela global, se deu mal), embora numa 1ª ouvida se possa pensar ser uma balada dos caras. E da qual faço questão de citar a letra toda:
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A Face De Deus
Eu vi a face de Deus/Pichada no muro
Lá longe, na cidade/No seu beco mais escuro
Onde as crianças tomam drogas/Os bêbados se arrastam
Onde Judas perdeu as botas/Onde apagaram o dedo-duro
Eu vi a face de Deus
Pichada no muro
Eu vi
Vi salmos estilhaçados/Que nem cacos de vidro
Corações pisoteados/Chorando, pedindo abrigo
Vi cães sufocados/Na câmara de gás
Vi padres assassinados/Por abençoarem Barrabás
Eu vi a face de Deus
Pichada no muro
Ah, eu vi, eu vi
A face de Deus, eu vi
Vi Cristo no pau de arara/Ficou três dias de bico calado
Marias sorrindo felizes/Com seu sorrisos desdentados
Vi a casa de Noé/Alagada num dilúvio
Eu vi os doze apóstolos/Brigando num trem de subúrbio
Eu vi a face de Deus…
Eu vi o Menino Jesus/Abandonado numa esquina
Francisco de Assis/Passando cocaína
Vi anjos espatifados/Por não saberem voar
Vi crentes no inferno/Por não aprenderem a rezar
Eu vi a face de Deus…
O que gerou esse som? Fora uma execução ou outra em rádio rock, apenas uma versão MENOR do Não Religião [de "Não Saiu Em Cd" a eles dedicado em setembro último]. E se não é coisa digna de hordas norueguesas posers, ao menos ainda não tem paralelo EM PORTUGUÊS.
Ou teria?
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Vou concluindo apenas opinando não gostar de “A Voz De Morro”, da letra mais clichê (e mais próxima das letras de rap atuais), som em que acho que a banda se perdeu um pouco, tentando groovear ou ser mais acessível. Mas nada que comprometa o ENCANTO desse disco, verdadeira pérola aos porcos.
E pérola aos POUCOS também, pois infelizmente se trata do ÚNICO trabalho dos Inocentes que não saiu em cd. E que certamente jamais sairá.
Cabendo apenas baixar por aí. Tendo as letras próximas. Assim.
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