Fúria Metal

Duas lembranças recentes entrecruzadas:

1) post antigo aqui pelo Fórum, onde se perguntava barra discutia sobre Frank Zappa. E em que com minha entrada na conversa – como sempre – o papo miou, não sem eu ponderar acerca de “Ship Arriving Too Late to Save A Drowning Witch” ser minha capa favorita em todos os tempos

2) semana passada lá no Thrash Com H, uma discussão ora surtada ora engraçada sobre o Torture Squad descambando pra lembranças de bandas que “ficaram pelo caminho”, como o Disarmonic Orchestra

Uma e outra coisa somada na minha cabeça, me fez lembrar da MELHOR CONTRACAPA DE DISCO DE TODOS OS TEMPOS, pra mim. Esta aqui dos austríacos:

O disco, “Not to Be Undimensional Conscious”, é daqueles tão diferentes barra esquisitos barra ruins, que se tornam até bons por isso. (E eu obviamente recomendo). Teve videoclipe de “Groove” passando no Fúria Metal. E foi lançado em vinil por aqui pela Rock Brigade, em época prévia à onda exagerada de “super lançamentos” revolucionários em cd do selo, sempre a ocupar páginas de anúncio de catálogo na publicação.

Época de que se pegarmos as revistas agora para vermos que bandas “vingaram” a posteriori, provavelmente ficaremos estarrecidos com o monte de coisa de que nunca mais se ouviu (falar).

“First”, Volkana, 1991, Eldorado

sons: DARKNESS / TO DIE IS NOT TO DIE / PET SEMATARY [Ramones] / THAT’S MY VICTORY / DESCENT TO HELL / SCRATCH NOISE / WAR? WHERE MY ENEMY LIES / SILENCE CITY / HIDE / VOLKANAS

formação: Karla Carneiro (guitar), Marielle Loyola (vocal), Mila Menezes (bass).

Special appearances: Sergio Facci (drums), Mariel Loyola (voice in “That’s My Victory”), Thayde (rap in “War? Where My Enemy Lies”), DJ Hum (scratch in “War?…”, “Descent to Hell” e “Scratch Noise”), Carlos Eduardo Miranda (noise guitar in “Descent to Hell”, tambourine in “That’s My Victory”)

.

Em 1989 eu estudava na 8ª série e começava a ouvir metal. Por conta dos headbangers do fundão, começavam a me soar familiares nomes como Metallica, Slayer, Sepultura, Testament. (Gravei meus primeiros Slayer em fita, e ganhei no Natal daquele ano o vinil duplo do “…And Justice For All”). Gente que conheço hoje viu o Testament e o Nuclear Assault ao vivo naquele ano. E o Metallica no Ginásio do Ibirapuera (porra, foram 3 shows!). Tem gente que também viu o Nasty Savage, que voltou (e parece que não virou) e eu nem teria feito questão.

E eu ainda não lia a Rock Brigade. Revista de música que eu acompanhava era a extinta – e já decadente – Bizz. Que na edição de agosto de 89 (já tá acabando a introdução), em uma exígüa seção de ‘bandas novas’, falava e mostrava (em uma foto), o Volkana. Banda de metal só de mulher.

****

Claro, eu ainda era novato na coisa, e tinha 14 anos. Portanto, a foto influiu BASTANTE na vontade de querer ver algum show ou comprar o disco delas logo que saísse. O disco, este “First”, só foi lançado em 1991, mas até aquele momento já tinha ido a uns 2 ou 3 shows delas. O 1º, no Centro Cultural Vergueiro, abrindo pros Inocentes (e ainda com uma baterista, Débora); outro, no Dama Xox, abrindo pro Vodu (que era horroroso – isso eu já falei aqui – e lançava um ep tosco, o “No Way”), e algum outro sei lá onde (abrindo pro Golpe de Estado?). Ambos já com o sumido Sérgio Facci, jamais efetivado, sempre dado como ‘músico convidado’.

Hoje vejo que nem eram tão gostosas. Jeitosinhas talvez (a baixista Mila tocando de shortinho, meiões e botas de boxe ainda considero uma ÓTIMA IDÉIA, e me chamava mais atenção). Mas por conta do ineditismo – “a 1ª banda feminina de thrash metal de que se tem notícia no Brasil”, “nova coqueluche (sic – argh!) roqueira do Planalto e tem levado mais de 300 pessoas a seus shows”, dizia o texto que acompanhava a foto na revista – elas até que tiveram ótima divulgação: tocavam direto no “Matéria Prima” e no “Som Pop” (tv Cultura), tiveram show transmitido em rádio (89 fm).


O som era thrash, mas não o Bay Area (palheteiro, técnico e seco), muito menos o europeu (de mais riffs e pegada): diria ser um thrash metal bem idiossincrático. Pois a Karla compensava limitações (apenas 3 sons no disco têm “tentativas” de solos) em palhetadas semi-punk, cujos buracos eram preenchidos pelo baixo motörheadiano da Mila (que usava Tagima – era endorsse; foram dos primeiros casos por aqui – que soava como Rickenbacker). O toque metal era cortesia do baterista, que longe de ser firulento ou carregado de 2 bumbos (usava pedal duplo na maioria das vezes), tinha uma pegada firme, viradas de acordo, um estilo próprio. E era titular no Vodu.

****

E o vocal, em que se pesassem outras limitações, era o verdadeiro CALCANHAR DE AQUILES. Até hoje não consigo precisar se era um tom de voz inadequado (muito agudo, feminino demais, sei lá), ou se pelas linhas melódicas – em sua maioria bem aleatórias – mas Marielle segurava as pontas com algum carisma e boas letras. Embora destoando um pouco do som.

Sons mais rápidos como “Descent to Hell”, “War? Where My Enemy Lies” e “Silence City” (com vocalizações também mais graves) ainda descem redondo nesse quesito. Essas duas últimas, junto a “Hide”, “That’s My Victory” e “To Die Is Not to Die” [hit por aqui na Rádio Exílio] ainda contam com refrões marcantes que também compensavam. Porém, “Volkanas” e “Pet Semetary” (desnecessária – inclusive em suas vozes sobrepostas) ficaram estranhas.

Essas 2 últimas citadas são as que considero as mais fracas dum disco bastante homogêneo e até experimental. Não era tão moda ainda fundir metal e rap, e “Descent to Hell” e “Scratch Noise” (vinheta construída com scratches a partir de bases e grooves da banda), contêm intervenções do DJ Hum. “War?…” contém um rap em português entoado pelo Thayde que, salvo engano, é alguma citação de Shakespeare. Em “That’s My Victory”, o que rola é uma vocalização árabe próxima ao refrão, em época ainda anterior às fusões do heavy metal com tantos outros estilos. Legal.

“Darkness” tratava de aids e teve um clipe razoável, filmado ao vivo (mas com áudio do disco) nalgum show em Santo André, que passou bastante no Fúria Metal. Não só essa, mas também as demais letras, têm assuntos um algo mais interessantes que a média de clichês que a maioria das bandas brasucas apresentava. [E ainda apresenta]

“First” retratava uma banda inexperiente, porém promissora que, sei lá por que (só me resta hipotetizar), não deslanchou. Apesar dos pesares, um disco interessante que, inexplicavelmente – ainda – não saiu em cd (puta omissão da Eldorado essa), e que apontava caminhos pra banda. Exemplo: “Volkanas” tem uma levada meio “Kill ‘Em All” e ficou bastante heterogênea em suas várias partes, em estilo de composição que talvez se aperfeiçoasse em futuros lançamentos.

****

E os futuros lançamentos FOI um 2º disco, “Mindtrips”, bastante descaracterizado dessa proposta raçuda inicial. Contava já com uma 2ª guitarrista mais técnica – uma tal Selminha – e uma vocalista idem (Cláudia França, que pra não soar perfeita ia muito na escola dos vocais James Hetfield pigarreados). As músicas vieram mais concisas, letras idem – e bem mais clichês – e meio que dali elas foram sumindo…

Da última que soube delas, tinham uma formação toda feminina novamente (talvez tivesse sido sempre o objetivo, o que acho meio besteira), com aquisição da ex-baterista do Kleiderman, Roberta Parisi, mas nem de show se ouvia falar mais. Uma última gravação que da banda tenho é versão fiel da mediana “I Love Rock’n’Roll” (Joan Jett), incluída numa coletânea indie obscura e metida a cult (pleonasmos…), “No Major Babies”, que ainda tinha uns sons válidos de Ratos de Porão, Gangrena Gasosa, Killing Chainsaw, entre outros.

Sei que Mila e Karla ainda trabalham em lojas de instrumentos lá na Teodoro Sampaio; da Marielle, lembro de tê-la visto em programas da tv Cultura (pra variar), como o Musikaos e o Turma da Cultura, tocando um som mais pop, num certo Cores D’Flores, legalzinho. Quanto a Sergio Facci, pra mim um desperdício e um mistério: provavelmente parou de tocar, pois nunca mais ouvi falar dele, nem de alguma outra banda de que fizesse parte. Será que virou crente?

.

PS – Carlos Eduardo Miranda (aquele) não participou apenas guitarreando numa faixa e tocando pandeirinho noutra: foi também o PRODUTOR de “First”

PS 2 – “FUCK THE NEIGHBORS! PLAY IT LOUD”, consta maiúsculo na contracapa do disco

PS 3 – resenha publicada originalmente no meu blog solo, Thrash Com H, nos proterozóicos idos de 2004 (em 15 de Junho, precisamente), e reeditada aqui no Exílio Rock com sutis correções e adaptações

O post é para dialogar com post do mês passado (de 9 de Fevereiro) do camarada Evander por aqui no Exílio Rock, que colocou vídeo do Grim Reaper como dos grandes videoclipes do estilo.

Quero contribuir com a idéia, na sugestão de que isso vire até alguma pauta recorrente: certamente todo mundo por aqui tem seu clipe de metal preferido, foderoso, portentoso, magnífico, injustiçado, o mais tr00 e etc.

O meu tudo isso, da vez, é “New Millenium Cyanide Christ”, do Meshuggah, xaropetas de carteirinha:

Imagem de Amostra do You Tube

Porque adoro videoclipes desse naipe: baixo orçamento sem servir de desculpas para produções toscas e, não raro, pretensiosas. Falem a verdade: é um clipe que todos nós, por aqui, poderíamos ter feito. Uma câmera na mão, filmar o som umas 3 vezes pra daí editar, e a obra-prima se conclui! Continue lendo

Categorias

Nuvem de tags

Facebook