Todo este imbróglio da (maldita) Taça das Bolinhas traz à tona alguns aspectos repugnantes não apenas do nosso futebol e dos cartolas, mas dos brasileiros como um povo.
É incrível e desapontador observar a postura que cartolas e torcidas adotam com relação a algumas decisões tomadas pela (estúpida) CBF. É decepcionante notar como os nossos conceitos de certo e errado são flexíveis e atendem simplesmente à nossa conveniência. E não acredito que as pessoas se dêem conta de como estas atitudes relevam quem e como somos enquanto povo de uma nação.
Meus avós vieram morar em casa quando eu ainda era garoto, por conta de uma paralisia que afetou o meu avô. Como são-paulino fanático, meu avô começou uma verdadeira e secreta campanha para me tornar são-paulino, já que eu passava grande parte do tempo com ele. Presenteou-me com chaveiros e flâmulas do SPFC, contou-me sobre conquistas do time e sempre me convidava para assistir a jogos do SPFC no quarto dele (já que ele não podia se locomover por conta da paralisia).
Por conta disso, virei um apaixonado são-paulino em uma família de corintianos (algo que todo mundo em casa, mas especialmente minha mãe – corintiana roxa - respeita, mas lamenta). Defendo meu time de acusações absolutamente injustas de só ganhar roubado, sofro quando perde (o que tem sido bastante comum – Obrigado, Juvenal!), comemoro quando o time vence, tenho orgulho da história e dos inúmeros títulos conquistados, acompanhei diariamente via internet o que ocorria no clube até quando morei por dois anos e meio na Austrália e por vezes (não tão raro assim) tenho minha razão obscurecida por tamanha paixão pelo clube que aprendi a amar.
No entanto, o que sempre tive em mente – mesmo quando erro – é que os conceitos de certo e errado não são relativos. Eles não estão aí para atenderem à nossa conveniência. E é isto que o SPFC, especialmente na figura de Juvenal Juvêncio, vem fazendo. Quem conhece a história do nosso esporte sabe que o Flamengo é o legítimo campeão de 1987. A (estúpida) CBF quis mudar as regras no meio do jogo e o Flamengo, em uma atitude que deveria ser louvada por todos – em especial o SPFC, que faz oposição à (estúpida) instituição –, opôs-se corajosamente a esta arbitrariedade. E foi reconhecido pelos seus pares poderosos como o verdadeiro campeão daquele ano.
O que Juvenal Juvêncio vem fazendo é um descaso com a história do nosso futebol e uma demonstração de oportunismo baixo, que não condiz com a fama do SPFC. No momento em que lhe foi conveniente fazê-lo, o SPFC passou a não reconhecer o titulo do Flamengo e declarou-se pentacampeão único. E a torcida vai atrás dessa ridícula desfeita. É absurdo que aceitemos – pior ainda, que alguns de nós se vanglorie – de algo tão absurdo e irresponsável. Eu amo o SPFC, mas também adoro o futebol como esporte. Quero que o meu time ganhe títulos e taças, mas quero que o faça por merecimento e não por pura, simples e mesquinha conveniência.
No final das contas, a (maldita) Taça de Bolinhas, que representava uma conquista tão nobre, perdeu seu significado em meio a brigas judiciais e rusgas políticas. Mais um símbolo que os cartolas do nosso futebol conseguiram destruir. Afinal, de que adianta ser o detentor de uma taça que está envolta em uma polêmica interminável e que ainda por cima foi conseguida quando se vai contra aquilo que se acredita? Afinal, o SPFC está contra a (estúpida) CBF só quando lhe interessa? Quando a (estúpida) CBF faz um desmando que favorece o SPFC, então ela passa a estar certa e tudo bem? Para Juvenal Juvêncio e essa diretoria atual do SPFC, parece que é assim que funciona. Para mim, como são-paulino, como cidadão, como brasileiro e como pessoa, não. Não é assim, não.