Na última parte da nossa série sobre acidentes que marcaram época na F1, nada mais apropriado do que falar sobre o mais inesquecível deles (pelo menos para nós, brasileiros): o de Ayrton Senna da Silva, cuja fatalidade completou 16 anos nesse mês de maio. Vamos voltar alguns anos, principalmente aos 2 últimos que antecederam a famosa corrida em Ímola.
Em 1992 e 1993, Senna viveu um verdadeiro inferno astral. Sem carro capaz de competir com as Williams, ele foi obrigado a contar com ajudas externas, como a da chuva, por exemplo, para brigar pelas vitórias. Mesmo assim, não decepcionou seus fãs: venceu 8 provas e largou 3 vezes na pole. No final da temporada de 93, no entanto, os ventos finalmente pareciam soprar a favor do brasileiro, ao anunciar em entrevista coletiva de que havia assinado contrato de 3 anos para guiar os poderosos carros de Frank Williams.
“O melhor piloto no melhor carro”. Esse era o bordão da imprensa especializada e, principalmente, dos torcedores brasileiros, que sentiam que teriam novamente a chance de testemunhar Senna com condições reais de brigar pelo 1º lugar. Mas, nem tudo saiu como o planejado. Para a temporada de 1994, a FIA baniu a suspensão ativa e o controle de tração, além de trazer de volta o reabastecimento durante as corridas. Resultado: com a mudança do regulamento, a Williams “de outro planeta” se transformou num péssimo carro, “difícil de guiar e instável nas curvas”, como o próprio Ayrton definiu. Para piorar as coisas, havia forte suspeita de que a Benneton, equipe de Michael Schumacher, ainda estava usando os recursos proibidos pela FIA.
Diante dessa névoa obscura, o torcedor brasileiro viu Ayrton puxar sua máquina ao extremo limite, em Interlagos, e fazer a pole-position, alguns centésimos de segundos na frente de Schumacher. A corrida, porém, foi uma decepção….Senna liderou, com Schumacher na cola, até metade da prova, quando ambos foram aos boxes. A Williams se atrapalhou com o reabastecimento de Senna, e ele volta 8 segundos atrás de Schumacher. Na tentativa desesperada de retomar a liderança, Senna rodou sozinho e abandonou a corrida, numa das maiores decepções da história recente do esporte brasileiro.
Após abandonar o GP do Pacífico antes da primeira curva e ver novamente Schumacher vencer, o alerta vermelho soou dentro da equipe Williams. Schumacher estava kilométricos 20 pontos na frente de Senna. A terceira prova seria em Ímola e, após pedido do próprio Senna, mecânicos varavam a noite fazendo ajustes no carro. Senna novamente tirou tudo que podia da máquina e marcou a terceira pole consecutiva na temporada, mas, na sétima volta, a suspensão não aguentou o tranco e simplesmente deixou o piloto na mão, na perigosa curva Tamburello. Senna morreu segundos depois do choque contra o muro. Federico Bondinelli (um dos responsáveis pela empresa que administrava o autódromo de Ímola), Giorgio Poggi (o responsável pela pista), Roland Bruinseraed (o director da prova), e o mecânico que soldou a coluna de direção do Williams foram indiciados por homicídio culposo, por negligência e imprudência. Porém, em dezembro de 1997, o juiz Antonio Constanzo absolveu os acusados.
Em 2004, um documentário de televisão da National Geographic, chamado “A morte de Ayrton Senna”, foi transmitido para o mundo inteiro. O programa considerou os dados disponíveis do carro do Senna para reconstituir a sequência de eventos que o conduziu ao acidente fatal. O programa concluiu que o longo período que o safety-car permaneceu na pista fez reduzir as pressões nos pneus de Senna, abaixando o carro. Com o carro mais baixo, o chassi tocou o solo, fazendo o carro saltar e tornando a direção incontrolável. Senna teria reagido, mas, com os pneus travados, ele foi arremessado para fora da curva. O programa concluiu que se as reações do piloto tivessem sido mais lentas, ele talvez pudesse ter sobrevivido. Pilotos e especialistas em Fórmula 1 consideram parte dessa teoria como improvável, pois os pneus de Fórmula 1 se aquecem até a temperatura ideal depois de percorrer apenas 2 km, meia volta no circuito de San Marino. Assim, na volta 7, os pneus do carro de Senna já estariam aquecidos.
Esse acidente também vale uma análise fria e sem preconceitos. Todos sabiam da ganância de Ayrton pelas vitórias e que ele simplesmente odiava chegar em 2º lugar. Ayrton sentia que Schumacher e a Benneton estavam passando por uma excelente fase, onde tudo dava certo. Era preciso reagir. Mas, será que ele não poderia ter esperado mais algumas corridas? Se fosse Nelson Piquet ou Alain Prost nessa situação, tenho certeza de que ambos permaneceriam ali, quietinhos, em segundo lugar, somando pontos, até que a situação do carro estivesse totalmente normalizada, e, a partir daí, lutar diretamente pelo 1º lugar. Essa teoria se torna mais forte ao observar que, no final daquele ano, a Williams já tinha um carro superior ao da Benneton, a ponto de Schumacher ter precisado apelar contra Damon Hill para garantir o título.
Mas, tudo isso agora é história.
Dedicado a Cristian.
Autor: Claudio Herring (17 Artigos)
Cláudio Herring, quando não está trancafiado em algum escritório do Porto, ou zanzando pela praia, costuma passar seu tempo atormentando a família Exílio Rock com piadinhas infames, tanto no Fórum como no Chat. Mas, na medida do possível, nosso amigo tentará se portar da forma mais profissional possível nos domínios desse Blog.

Foi realmente uma comoção a morte dele. Durante semanas só se falou nisso. Se bobear, foi o maior ídolo no esporte brasileiro depois de Pelé.
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