Que bom que alguém de renome pronunciou-se sobre isso. Que é coisa que há muito tenho comigo mesmo, e aproveito o ensejo pra transformar em post aqui no Exílio Rock.

A declaração pra Reuters, citada no UOL, de Brian Johnson, do AC/DC, em matéria intitulada “Líder do AC/DC manda roqueiros pararem com sermões de caridade”.

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Que uma parte copio abaixo:

SYDNEY (Reuters Life!) – Os roqueiros anglo-australianos do AC/DC têm uma mensagem para os roqueiros decididos a fazer o bem: parem de pregar sermões ao público sobre doar dinheiro para caridade.

Em entrevista ao jornal australiano “The Daily Telegraph”, o vocalista da banda, Brian Johnson, disse que as pessoas não querem celebridades ricas, como Bob Geldof e Bono, lhes dizendo para pensarem em crianças morrendo de fome.

“Eu não fico mandando todo mundo dar dinheiro — nem todo o mundo pode”, disse Johnson, cuja banda recebeu o primeiro Grammy de seus 37 anos de carreira no último fim de semana — o de melhor performance de hard rock, pela canção “War Machine”.


“Quando eu era trabalhador, não queria ir a um show para ouvir algum bastardo… falar comigo em tom de superioridade, dizendo que eu deveria estar pensando em alguma criança na África.”

Johnson disse que sua banda prefere fazer trabalhos para caridade em particular, gastando um pouco de seu próprio dinheiro.

“Faça um show beneficente, tudo bem, mas não na televisão mundial”, disse ele.

*****

A coisa começou lá nos 70′s com o “Concert For Bangla Desh”, encampado pelo riponga George Harrison, naquele que foi o último suspiro dum hippismo pretensioso no mundo: show com monte de gente engajada arrecadando dinheiro pra ajudar o povo de Bangladesh.

E ajudou um monte, haja visto o país ter se tornado uma ilha de prosperidade em meio a tanta pobreza ali da região, hum?

(falando sério: do que me lembro, a grana arrecadada demorou tanto pra chegar no lugar, que qualquer esforço resultou chôcho)

Os 80′s tiveram o famigerado Live Aid, do anódino Bob Geldof, que uma ou outra coisa legal proporcionada foram o show do Queen e a reunião do Black Sabbath com o Ozzy, coisa esporádica que depois viraria marketing oportunista/mentiroso contumaz.

A chamada presunçosa do evento era: “o dia em que a música mudou o mundo”. Mudou mesmo? Porra nenhuma!

Lembro vagamente dalgum dirigente africano (talvez fosse o próprio Mandela) falando que qualquer ajuda à África deveria ir por outros caminhos que não o de mandar dinheiro, uma vez que boa parte da (senão TODA) grana ficava retida com os políticos e filhos da puta locais de plantão.

O pessoal não aprendeu nada com a caridade inofensiva, e em 2005, fez-se novo evento megalomaníaco, o Live 8, cuja premissa (ou “mensagem”) era a de pedir aos 8 países mais ricos do mundo que aliviassem as dívidas externas dos países mais pobres do mundo.

Resultou em quê? Novamente em nada.

E que a única coisa legal, pra mim, foi ver o Pink Floyd clássico reunido tocando 4 sons, em combo que incluiu David Gilmour com cara de cu.

Meu ponto é: Johnson acertou em cheio em mirar a presunção e o messianismo de certos rockstars, em muito pouco diferentes, na conduta supostamente caridosa, dos pastores/bispas seita-cheque que ficam instigando os fiéis a darem o que têm, e o que não têm, pra caridade.

Quer fazer caridade? O faça na surdina, sem propagandear. E sem chantagear o público. Faça show beneficente. Aja, em vez de ficar pregando. Faça um blog, ou divulgue no twitter, ou em encartes de discos, instituições de confiança: já fica bão assim.

Porque entendo esse tipo de caridade como algo vão e inócuo, tanto quanto nós por aqui dando esmola pra molecada na rua por dó. Em ação que nos isenta de alguma CULPA e/ou REMORSO, mas que a longo prazo só perpetua a condição de adultos explorando menores, que quando tiverem os seus menores também o farão. Ou de transformar mendicância e flanelismo em emprego.

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Tem ainda o aspecto da PRESUNÇÃO desses messiani-cus: a África, a Ásia, a América Latina e a Amazônia PRECISAM ser salvas. Como se os países desses caridosos não tivessem problemas suficientes.

Idéia: que tal o Bolacha Bono Vox sortear 5 privilegiados do fã-clube oficial do U2 pra servirem, por um glorioso sunday bloody sunday, de escudos humanos em algum momento de cessar cessar-fogo entre católicos e protestantes católicos ali em Dublin?

Seria experiência enriquecedora, sem dúvida.

Idéia outra: que tal a Madonna, agora já com a filha praticamente emancipada (parece já estar dando prum namoradinho), sortear bibas privilegiadas de seu fã-clube oficial pra morarem um tempo no  Burundi, e assim tratarem de crianças desidratadas, ou ajudarem-nas a terem seu almoço todo dia?

****

Tenho sérias dúvidas, em suma, sobre ações pretensiosamente caridosas de gente de projeção e renome como essas (e dá pra incluir a Beiçuda Jolie e o Bad Trip na lista também); embora não faça objeção a efeitos PALIATIVOS de algumas dessas iniciativas (vide Nova Orleans e as vítimas do Katrina, negligenciadas pelo W.Bush).

Pois, digam-me: algum mega-show caridoso, ou ação arrojada, desse povo rico e por vezes dando de superior, sim, e culpado, resultou em algo??

Não me lembro de nada efetivamente ocorrido. Porque são atos isolados.

(Outro exemplo: será que ajudou alguma coisa os índios daqui o Sting naquela época de levar o Raoni pra lá e pra cá pelo mundo?)

E que em algum momento eu pensava ser coisa de marketing oportunista. Parece não ser tanto. (Ou não mais). Parece-me, agora, ser mais coisa de ingenuidade mesmo. E de reparação equivocada, até hipócrita, de culpa. Ou de não se saber onde gastar tanto dinheiro.

De coisa que não se reproduz, tampouco vejo gerando mudanças REAIS no mundo.

Line Break

Autor: txuca (132 Artigos)

Marco Txuca vem tocando o Thrash Com H já há uns anos e é meio autista, pois o tocaria mesmo se ninguém o lesse. É algo ingênuo e idealista, mas com Metallica e Slayer tendo recentemente lançado discos QUASE à moda antiga, não sabe o que fazer com o que sobrou disso; só sabe que não ganha o bastante pra virar fiel da Renascer nem da Universal. /// É tr00 a seu modo, pois se não traja ridículos moletons agarrados no saco escrotal, tampouco anacrônicos canos-altos brancos oitentistas (já anacrônicos em seus "áureos" tempos, por sinal), canaliza essa energia dispendendo boa parte de seu rendimento suado em cd's e dvd's originais, só que não por acreditar que isso ajuda as bandas, mas por fetichismo por entrelinhas e rodapés em encartes e contracapas.

3 respostas para VÃ FILOSOFIA

  • Marco diz:

    Acho que os caras ganham tanto dinheiro que fazem isso para acalmar sua conciencia , um bom exemplo é a Angelina jolie, que pirou quando viu a pobreza na Africa , agora faz de um tudo para ajudar, mas já sabemos o resultado. A pergunta que fica é :
    - Entao se nao resolve ajudar vamos deixar a propria sorte?

  • dom casmurro diz:

    até onde sei, toda a grana que levantaram pra ajudar o Haiti nem sequer chegou lá.

    infelizmente não tem saída, não é esmola que tira países da miséria e sim eles próprios que devem se reerguer, livrando-se de déspotas, ditadores e oportunistas de plantão.

  • Vou na do Casmurro ainda um pouco: tive grande vontade de depositar algum pro Haiti.

    Mas sei q se mandar 10 conto, 10 centavos chegam, se muito. Porque o Banco Itaú vai tirar o seu, o governo daqui o seu, e algum governo de lá também uma parte.

    Nem acho que as coisas devam se resolver por si próprias, mas acho que certas celebridades ou ricos remorsentos deveriam, já que tiveram inciativa suficiente, era METER A MÃO na massa. Irem a campo, gerarem alguma coisa de fato pra mudanças, e não apenas ficarem fomentando mudanças paliativas.

    Como alguns futebolistas por aqui (alguns na surdina, por não quererem aparecer de “santos”) que criam ong’s ou instituições que visam mudar o meio de onde vieram. Pra melhor.

    Pra complementar ainda, com algo que ficou faltando eu falar da Madonna: que sorteasse umas bibas pra ir trabalhar um tempo com os homeless de Nova Iorque ou Chicago, que tal?

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