Em julho de 2001, o polêmico Napster suspendeu a troca gratuita de arquivos MP3 através da internet. Iniciava-se aí uma polêmica que até hoje não acabou. Mas será que esse alvoroço todo tem fundamento?
Bem, vamos começar bem do início. O que diabos é um MP3? Tudo começou na Alemanha, em 1987, quando pesquisadores do Instituto Fraunhofer começaram a desenvolver um novo formato de compressão para arquivos musicais. O CD já estava começando a ameaçar o reinado do vinil e a internet ainda era restrito aos círculos acadêmicos, por isso, uma pesquisa desse porte poderia trazer incríveis aplicações práticas para o futuro. O pessoal do instituto alemão conseguiu registrar a patente do MP3 em 89, mas apenas em 92 ele conseguiu ser reconhecido pela entidade que coordena a adoção de padrões técnicos internacionais, a IOS (International Organization for Standardization).
Aos poucos, a incrível compactação que o MP3 impunha aos arquivos de música começou a trazer uma nova realidade: as pessoas podiam trocar músicas através do computador, utilizando a internet. Foi assim que, em 97, surgiu o primeiro grande tocador de MP3 popular, o Winamp. No ano seguinte, as gravadoras perceberam o perigo potencial do MP3: se as pessoas podiam trocar músicas pela internet, para quê comprar CDs? Surgiu, então, a Secure Digital Music Initiative, a primeira coalizão para brecar o avanço do formato de compressão digital.
O grande golpe para as gravadoras, no entanto, aconteceu em 2000, quando um estudante norte-americano criou o Napster. O programa funciona no sistema peer-to-peer, ou seja, em vez de você baixa o arquivo de uma central, você faz o download diretamente do computador de alguém que tem aquela música e está conectado naquele momento. Um lance de gênio, sem dúvida, que se popularizou com uma velocidade estonteante na internet. Da noite para o dia, a quantidade de usuários do programa passou a ser contada em centenas de milhões.
Os grandes abriram os olhos e entraram na briga: a Microsoft lançou seu Windows Media Player, enquanto a Apple foi mais fundo e soltou um programa que toca e codifica MP3: o iTunes. Depois dessa fase, pipocaram na rede programas aternativos e até um formato alternativo, o Ogg Vorbis, uma versão de código aberto do MP3.
GUERRA PARTICULAR DO METALLICA
O sucesso do Napster deixou as gravadoras em pânico e uma banda de heavy metal partiu para o ataque e se tornou o centro de uma polêmica mundial: Metallica. A banda californiana abriu um processo contra o Napster que teve um efeito devastador no mercado, causando bate-boca em todo o planeta. Fãs revoltados chamavam a banda de mercenária e praticaram sistemáticos ataques ao conjunto na internet. Por mais paradoxal que possa parecer, eles foram apoiados por diversos artistas que defendem o MP3, como Courtney Love, Public Enemy e Offspring.
Do outro lado, o Metallica recebeu o apoio de Madonna e de dezenas de outros artistas, que ficaram preocupados com os prejuízos causados pelo não pagamento de direitos autorais e com a queda de vendas de CDs.Alguns artistas vêem o MP3 como uma forma de divulgação da música, como o rádio. Eles argumentam que ninguém deixa de comprar um CD só porque ouviu a música no rádio. Além do mais, ao ter o arquivo de um disco em seu computador, o fã vai se interessar mais em assistir ao show de uma banda. Isso possibilitaria, por exemplo, turnês em países em que o disco de uma banda não tenha sido lançado, pois o MP3 criaria um mercado real para os fãs de um determinado conjunto.
A turma pró-Metallica não concorda. Afinal, não dá pra comparar o MP3 com o rádio, que geralmente só toca uma única música, normalmente um single regado a “jabá” (“presentes” dados pelas grandes gravadoras para que uma música toque muito no rádio). Com o MP3, você pode ter um disco inteiro para executar a hora que desejar, não havendo necessidade de comprar o CD oficial. Para eles, não há diferença entre um Torrent e um pirateiro do centro da cidade que clona os CDs originais em cópias de baixa qualidade para vender em camelôs.
A verdade é que a televisão não acabou com o rádio, o vídeo-cassete não acabou com o cinema, a TV a cabo não acabou com a TV aberta e a internet não acabou com a mídia impressa. Então, por que diabos o MP3 acabaria com a música? A tecnologia é nova e ainda está se desdobrando em infinitas possibilidades, por isso, é hora de artistas, gravadoras e programadores de software sentarem e procurarem uma alternativa tecnológica em que o MP3 não fira os direitos autorais de ninguém, afinal, é disso que os músicos vivem.
Num futuro muito breve, o MP3 será apenas mais uma ferramenta a serviço da música, como LP, EP, CD, MCD, K7, DVD ou VHS, que será distribuído em redes tipo DSL, em sistemas P2P, em arquivos reduzidos a KB e com pagamentos feitos através da identificação de seu ISP em um sistema seguro SSL. O futuro, meu amigo, é uma sopa de letrinhas.
COMO FUNCIONA O MP3
Quando é gravada em um CD comum, cada minuto de uma música ocupa aproximadamente 10 MB, sendo que um CD tem cerca de 700 MB. Ou seja, em média, dá pra gravar 70 minutos de música sem nenhum problema, apesar de que já existem diversos acessórios tecnológicos que permitem aumentar esse tempo. O formato MP3 permite ao computador analisar a música e eliminar os sons mais fracos (pouco perceptíveis ao ouvido humano), mantendo apenas vozes e instrumentos mais fortes.
Como a quantidade de informações sonoras fracas ocupam a maior parte do arquivo original de uma música, o MP3 consegue diminuir o tamanho desse arquivo em quase 90%. Em outras palavras, quando compactado no formato MP3, cada minuto de uma música passa de 10 MB para 1 MB em MP3, facilitando muito a troca desse arquivo pela internet.
Apesar de quase imperceptível ao ouvido humano, o MP3 diminui, sim, a qualidade sonora da música compactada para esse formato. Considere o seguinte: a audição humana pode registrar até 22 KHz de um som, que é o seu limite teórico. Para chegar nesse número, um gravador analógico precisa analisar um som cerca de 44,1 mil vezes por segundo e, a cada análise, usa cerca de 16 bits para representar o sinal analógico. Nas gravações em estéreo, a digitalização usa 32 bits, ou seja, 176 Kbytes por segundo de música ou cerca de 10 MB para cada minuto.
O MP3 baixa esse valor para 16 Kbytes por segundo, sacrificando os sons mais fracos da música. Digamos que uma música tem diversas guitarras gravadas com timbres semelhantes, mas volumes diferentes. Os volumes menos perceptíveis ao ouvido humano (abaixo de 22 KHz) são eliminados na conversão para o MP3, resultando em uma informação sonora muito menor do que a original. Esse mesmo princípio também é usado no formato Dolby Digital, que registra os sons de filmes.
O MP3 Pro, por sua vez, é um passo adiante na compactação de músicas, pois diminui 33% o tamanho do arquivo original do MP3 tradicional. Para chegar nesse patamar, o MP3 Pro usa uma técnica chamada SBR (Spectral Band Replication), desenvolvida pela empresa alemã (ó os germânicos aí de novo!) Coding Technologies, que começou a ser desenvolvida há apenas quatro anos. Funciona assim: ao se converter uma música para MP3 Pro, o arquivo é dividido em blocos de graves (baixa freqüência) e agudos (alta). Os graves são comprimidos como se fossem o MP3 comum, enquanto os agudos são simplesmente descartados. Na hora que a música vai ser tocada, o sistema SBR resgata os agudos deduz quais são as freqüências altas analisando as características das freqüências baixas da gravação. Para o ouvinte comum, a qualidade final do arquivo sonoro será idêntica (dependendo do tipo de música, até melhor) ao MP3 tradicional.
Autor: Fernando Filho (9 Artigos)
Editor da revista EGW (Entertainment + Game World) e editor-executivo da revista Nintendo World. Foi editor do canal MSN Tecnologia do portal da Microsoft entre 2009/2010 e editor da revista PC Magazine entre 2008/2009. Foi editor da revista Rock Brigade de 1990 a 2007. Atuou como correspondente internacional da revista Rock Brigade nos EUA (em 1994) e foi colaborador nos anos 1990 das revistas Burnn! (Japão), Young Guitar (Japão), Metal Hammer (Inglaterra), Headbangers Ball (Alemanha), Flash (Itália), Rock Hard (França), Epopeya (Argentina) e Mad House (Argentina), entre outras.


































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