Documentários: porque, afinal, quem é que não gosta de um bom “causo”?
Desde que os dinossauros viraram petróleo e nós, seres-humanos, tomamos conta dessa bagaça, é inerente à nossa raça o gosto por uma boa história. Desde aquelas contadas por nossos pais até alguma aula mais inspirada de algum professor de estudos sociais no primeiro grau, ninguém pode negar: quando o enredo é bom, não tem quem não fique com a “orelha em pé”.
No mundo da música a coisa não é diferente. Roqueiro pode até fazer pose de fodão mas, mesmo que lá no fundo, ele tem uma “comadre fofoqueira” dentro de si. Ele também gosta de um bom “causo”, de histórias de tretas épicas, de pessoas que beijaram o fundo do poço e que deram a volta por cima…
Colocadas essas peças do quebra-cabeças sobre a mesa, fica fácil entendermos o porque do sucesso e da redescoberta de um filão que tem história recente dento da música e que ficou anos inexplorado: o dos documentários.
Desde que o mercado da música expandiu-se para muito além do disco e do show do artista propriamente dito (Ex.: Vídeo-clipe), os primeiros documentários começaram a surgir. Ou seja, esse filão não é assim tão recente. Os filmes dos Beatles e outros tão seminais quanto, como “The Song Remains the Same” do Zep, não tinham como objetivo mergulhar nos bastidores das referidas bandas. Apesar de ser algo diferente (por mostrar a banda fora dos palcos, principalmente), eles não agregavam quase que nada ao fã em termos de informações de bastidores, técnicas, ou até mesmo quanto à biografia da banda.
Quando o VHS virou uma mídia acessível a todos, lá no início da década de 80, pipocaram diversos compilados de clipes e shows de diversos artistas que, às vezes, traziam alguma entrevista, um making-off ou coisa que o valha… Mas nada muito digno de nota no quesito “informação”.
Posto isso, cito um documentário que pode ser considerado “marco zero” dentro dessa praia, e que marcou muito o público heavy metal no nosso país: o “12 Wasted Years” do Iron Maiden. As cópias em VHS desse documentário, excelente por sinal, eram disputadas a tapa pelo pessoal na época. Era uma abordagem absolutamente nova: pela primeira vez, era a banda contando sua história, sem intermediários.
Com “a estrada asfaltada”, muitos começaram a trafegar por ela… mas de maneira tímida. Talvez por conta do custo (e pelo trabalho) que deve demandar uma produção do porte do “12 Wasted Years” (contactar ex-membros, ex-roadies, entrevistas em locações externas, visitas a antigos clubes, etc.), os documentários que sucederam-no vieram de maneira mais simples: reuniam-se os membros e fazia-se ali uma entrevista mais elaborada, tudo recheada com vídeos ou fotos da época.
Em 1990, pouco antes de entrar em estúdio pra gravar o sucessor do álbum “… And Justice For All”, o Metallica teve mais uma grande sacada na sua carreira: gravar todo o processo de composição e produção (pré e pós) do novo disco, bem como, toda a tour que o promoveria. O resultado, descontando-se o que cada um pensa do Metallica hoje em dia, é referência absoluta dentro desse estilo: “A Year And a Half In The Life of Metallica”.

Muita coisa foi feita depois disso. Quantos deles foram marcantes, vai de cada um julgar… Fato é que a coisa tomou novos rumos quando um canadense magrelo, com uma baita carranca de nerd, surgiu com o melhor documentário já feito retratando o estilo que mais amamos. Falo de Sam Dunn e o seu “Metal: A Headbanger’s Journey”.
Qualquer um que goste e entenda as características do Heavy Metal enquanto estilo musical, reconhecendo nele as virtudes que passam longe de paradigmas como “coisa de jovem espinhento e revoltado” , já sabia muita coisa que foi mostrada naquele documentário. Porém, ver a história toda contada sob um olhar bem mais clínico, que mergulha fundo nas raízes do estilo, com testemunhas que viram-no nascer e ajudaram-no a crescer, foi algo realmente de arrepiar. Foi como se, enfim, tivéssemos uma “ferramenta” para sentar em um sofá aquele primo pulha, ou aquele tio evangélico mala que sempre quis te tirar “do lado negro da força”, e mostrar para eles com quantos notas se faz um riff que faz o seu humor mudar instantaneamente.
Depois do sucesso a que foi catapultado desde o lançamento desse documentário, Sam Dunn não parou mais. De imediato, iniciou uma produção (também histórica!) que pretendia (e cumpriu) mostrar as características dos fãs de heavy metal pelo mundo afora. “Global Metal” nasceu clássico e foi comentado mundo afora por meses a fio. Ver a penúria pela qual passavam fãs do estilo em locais como Indonésia, China e Índia é de arrepiar. Até porque, levando-se em consideração que estamos deslocados dentro de uma linha do tempo, vivemos exatamente aquilo, porém, há 20, 30 anos atrás…

Sam Dunn, à direita, filmando um trecho de Global Metal em um deserto da Ásia.
Para garantir de vez o pé-de-meia do canadense, sua equipe de produção foi contratada para cobrir os bastidores e shows da “Somewhere back in time tour” do Iron Maiden. Outro trabalho digno de nota.
Ano passado, dois documentários excelentes viraram tema de discussões acaloradas nas “rodinhas” dos headbangers. O primeiro mostrava as agruras de uma veterana banda canadense na sua busca de quase trinta anos por um lugar no Olimpo do estilo. Em “The Story of Anvil”, o líder da banda, Steve “Lips” Kudlow, e seu fiel escudeiro e amigo de infância, Robb Reiner, foram seguidos por quase dois anos pela equipe de filmagem. O resultado foi um filme que chamou para a banda uma atenção que nenhum de seus discos jamais conseguiu. E com razão: o filme é ótimo!!! Até Michael Moore o elogiou… Nada mal!
O segundo é, enfim, uma presença nacional neste texto: “Ruído das Minas”. Elaborado para ser um TCC do jornalista (e aficionado por cinema e vídeo) Filipe Sartoreto, o documentário retrata o boom de bandas de heavy metal ocorrido em Belo Horizonte no meio da década de 80. O resultado final foi tão bom que o mesmo acabou sendo exibido na MTV para todo o Brasil. O documentário ganhou contornos de “histórico” ao trazer “para fora do baú” toda a história daquela cena contada por quem dela participou. E tudo recheado com trechos de vídeos inéditos nunca antes vistos.

Cartaz do documentário
É óbvio que a intenção desse texto não é encerrar o tema. Há muita coisa boa em vídeo que saiu desse mesmo forno por aí. “The Filth and The Fury” (sobre o Sex Pistols), os dois primeiros volumes do “The Early Years” do Iron Maiden, “Botinada” (sobre a história do punk rock no Brasil), as várias edições da série “Classic Rock” (que conta como foram concebidos alguns dos discos mais clássicos da história), etc…
Se você não tem muito saco pra ficar encarando filmes com seres azuis que parecem Smurfs em 3D nos cinemas, e prefere ficar em casa numa boa ao invés de pegar filas quilométricas nos cinemas, fica aí a sugestão.

Autor: Evander (8 Artigos)
Evandro F. nasceu em 1972 na longínqua São José do Rio Preto. É casado e pai de uma bela garotinha de três anos. Tem quatro paixões nessa vida: sua família, a engenharia elétrica, o futebol e a música.




















muito bacana o texto, evander!
acredita que eu não vi esse video do metallica?
vou descolar essa parada
Caipira, dessa vez você foi no ponto! É isso mesmo, quem não gosta de uma história bem contada (e se tiver uns “podrezinhos” junto, melhor ainda)??
Sugestão: faz um texto sobre livros biográficos de bandas – com ênfase nos “não autorizados”, claro!!
Sido e Tony: obrigado pelas palavras (e pelas dicas).
Esse do Metallica é muito bom e do canadense lá tambem, vale a sentada no sofá e o curioso que a emoção corre solta ao ver os caras nos bastidores fazendo o metal acontecer ! =D